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quarta-feira, 30 de agosto de 2017

Memórias de azul



Estava frio. Era um dia soalheiro de verão, mas estava frio. Mais ninguém o sentia, apenas ela. Todos os outros aproveitavam esta época insuportável. Insuportável, sim, para ela. O Inverno era mais belo, com as suas chuvas e o frio. Esse frio, embora, estava impossível longe daquele que ela sentia. Estranhamente, não sentia pelo corpo todo, só no peito. No coração, mais precisamente. Um frio morto e gélido, acompanhado por um aperto. O que causava isto era certo: a luz e o calor. Este desconforto quase que se aproximava daquele da dor de cabeça que se avizinhava. Quase. Havia soluções, umas mais cruas e bárbaras que outras. Uma era cortar. Já não fazia há anos, mas a vontade sempre esteve presente, a roê-la por dentro, a provocá-la com o seu riso metálico e doce, tão doce. Inapropriado. Álcool também funcionava. A sobriedade não ajudava nestas situações e a embriaguez era outra alternativa. Mas beber sozinha era apenas triste. Estava sozinha. Isso era outro problema. Também não ajudava. A sua família, bem… já não restava ninguém além dela; e a sua última relação tinha sido tudo menos saudável. Entre a violência bruta e o ruído da sua mente a despedaçar, havia apenas tempo para os comprimidos e os cortes. Já os fazia há anos. Mas durante essa relação a situação tinha-se agravado…
Reviver o passado era uma prática dolorosa, mas a mais eficiente, ou antes, aquela que todos aceitavam visto que ninguém a podia impedir de o fazer. A linha de pensamentos continuava…
Ela olhava-se ao espelho, a sua face em ensopada estava. Estava a arder em febre. Finalmente. Há talvez dois anos que não se sentia assim. Hoje sonharia… Não fosse a alucinação que lhe aparecia no espelho. Pesadelos seja, era melhor que nada. Era uma cópia perfeita dela, à exceção da sua pele sem qualquer marca, ou seu corpo que se parecia manter sempre no peso ideal. O seu clone atormentava-a, apontando para os seus braços com pequenos riscos e para o seu corpo esquelético. Mas o seu lugar preferido eram os pulsos. Esses eram tão finos e deformados pelas várias tentativas falhadas.
 Embora a sua companhia fosse claramente desagradável, era companhia e de entre todo aquele ódio que sentia por ela existia uma réstia de gratidão. E sumiu-se. Não conseguia deixar de sentir saudade. Saudade por alguém que não existia e, mesmo assim, não podia ser mais real. Uma parte de si. A melhor parte de si.
Diogo Oliveira, n.º 6, 11.º A

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