Endereço de correio eletrónico

ociclista@aeanadia.pt

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

“O triângulo da descoberta”


2º Episódio


Ainda demorou algum tempo para sairmos do porto, mas isso deu-me algum tempo para me instalar. Os compartimentos para arrumar as roupas eram pequenos, mas como não eram muitas, não representavam grande problema.
A primeira classe, só pelo nome, fazia-nos sentir como princesas, rainhas de um mundo sem nome. Era fantástico o que um monte de lençóis de qualidade, umas bebidas caras e um jantar requintado faziam à autoestima de alguém.
Decidi sair um pouco para assistir à partida. Por pouco não chegava a tempo.
O homem do sobretudo estava lá. Mais uma vez, era um obstáculo para mim: demorava demasiado tempo a subir as escadas. Para uma pessoa tão nova e tão bem parecida, andava muito devagar.
Quando estava prestes a desistir, ele chegou ao cimo. Já não era sem tempo!
Dirigi-me à proa do navio e esperei para sentir o vento na minha face.
Havia algumas pessoas a despedirem-se dos seus familiares. Umas choravam, outras mantinham a esperança de um regresso. Desejei ter os meus pais ali.
A distância foi aumentando gradualmente e, quando já estávamos suficientemente longe, decidi ir beber e comer alguma coisa. No meio de tanta água e com tanta sede.
Não era muito dada a bebidas alcoólicas. Nunca fui. A adolescência, mesmo não o parecendo é um período mais difícil da vida de alguém. Tantas formas de nos deixarmos cair, tantas tentações, tantos caminhos sem fim que não oferecem maneira de voltar atrás. Era disso que me orgulhava, de ter sido superior a tudo isso, de ter conseguido dizer que não. Se na geração dos meus pais, alguém era visto a fumar ou a beber, depressa era tido como um modelo de vida, um exemplo a seguir. Hoje, se há heróis, são os que mostram que é possível resistir a tudo o que nos suga para o vício.
Nem me dei conta do barman. Deixou-me o sumo e continuou o seu trabalho.
Senhoras e senhores, aproxima-se uma tempestade com chuva e ventos moderados. Pedimos que se dirijam aos seus camarotes. Obrigada.”, isto repetiu-se em mais não sei quantas línguas.
Andar de barco era bastante agradável quando tínhamos um leque de lojas para escolher, cinema e tudo o mais que possamos necessitar. Esperava poder descansar um pouco ao sol. O tempo de Londres não me tinha beneficiado muito no bronze. Era húmido e cinzento. Talvez também tivesse contribuído, em parte, para a minha partida de lá.
Já não fazia compras, sabe Deus há quanto tempo. Não havia disponibilidade para isso e era tudo tão caro. Não que fosse uma pessoa sem recursos económicos, mas nunca senti necessidade de gastar cem euros numa peça de roupa insignificante. Ali, a situação era diferente. Estava de férias e com disposição para tal. Porque não?
Mesmo não comprando nada, senti-me uma garota outra vez. Experimentei vestidos, camisolas, casacos. Tudo!
Quando ia a sair da terceira loja de calçado, deparei-me com o homem do sobretudo, de novo. Agora já não tinha o casaco. Afinal, não era assim tão feio quanto parecia debaixo daquela capa enorme e do chapéu com aba, tipo detetive privado. Apesar de manter o fato, não parecia muito mais velho que eu.
A expressão dele pareceu-me assombrosamente familiar. Os olhos, principalmente. Se não me conhecesse, diriam que eram os meus olhos e que aquele indivíduo que andava a seguir. Que tontice!
A viagem ia demorar alguns dias, talvez devido a ser feita em velocidade de cruzeiro. No segundo, já não me estava a sentir muito bem. Devia ser de dormir em mar alto. Acordei pálida e não demorei muito até expulsar os restos do marisco do dia anterior. Estaria estragado?
Procurei a enfermaria. Naquele barco havia de tudo. Parecia que tinha acontecido o mesmo a mais pessoas mas felizmente sabiam o que fazer. Estavam assustados com as consequências daquele incidente. Porque haveria eu de processar a companhia que organizou a viagem? Aquilo poderia ter acontecido em qualquer lado.
Por volta do meio-dia já me estava a sentir melhor, mas preferi continuar com as bolachas de água e sal e o chá.
A tempestade da noite anterior não tinha causado estragos. Era estranho olhar pelas janelas e ver tanta água em redor.
Uma funcionária bastante simpática veio ao meu camarote levar-me a segunda dose de medicamentos para o dia, não fosse dar-se o caso de a mal disposição voltar. Junto, trouxe uma carta lacrada. Quando lhe perguntei quem era o remetente, apenas me respondeu que tinha sido deixada ao comandante e que tinha o meu nome no destinatário. Ninguém se atreveu a abri-la.
Não lhe dei grande importância. Algum admirador secreto ou algo do género, pensei eu. Optei por tomar os químicos que me deixavam mais aliviada e comer mais um pouco.

Continua…

Sem comentários:

Enviar um comentário