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quarta-feira, 23 de dezembro de 2020

Pai Natal

O Município de Anadia percorre com um camião de Natal os estabelecimentos escolares do concelho de Anadia.

No dia 15 de dezembro o Pai Natal foi ao Centro Escolar de Sangalhos.

O Pai Natal, acompanhado por duas simpáticas Mães Natais, entregou um presente a cada criança. 


 

terça-feira, 11 de setembro de 2012

Rubix


Ana Rita Pereira


Prometemos mostrar a reportagem fotográfica do lançamento do livro da Ana Rita Pereira, o Rubix, e a verdade é que hoje vamos cumprir essa promessa. Como se devem recordar o lançamento realizou-se no dia 28 de abril, pelas 15 horas, na Biblioteca Municipal de Anadia.
A Equipa d´O Ciclista agradece a cedência das fotografias pela Biblioteca Municipal de Anadia.
Apreciem as imagens…

A Equipa d´O Ciclista

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Porto d´abrigo


4º e último Episódio
Ela desapareceu a correr e eu deixei-me estar sentado. E deixei cair a máscara. Não acreditava no que tinha feito. Era capaz de muito, mas de mentir assim descaradamente à pessoa que mais amei na vida, foi muito baixo, mesmo para mim… mas não havia mais nada a fazer. Não podia magoar o meu irmão, que há tanto a amava, para que eu pudesse ser feliz. Não podia, não depois do que aconteceu…
Fui eu o culpado do seu sofrimento. Fui eu que conduzi o carro que levava a pessoa que ele mais gostava no mundo. Fui eu que matei a namorada do João, e, embora me mentalizasse que foi um acidente, que a culpa não foi minha, todos os dias me lembrava daquele momento…Porque não fui eu que morri naquele acidente? Seria tudo muito mais fácil, seriam todos mais felizes…
Eu tinha que sair dali… Voltei para minha casa, fechei-me e não quis ver ninguém…
Passados dois dias, alguém bateu à porta. Bateu, bateu, e insistiu.
Desci as escadas irritado, abri a porta e gritei sem sequer olhar.
- Quem for que se vá embora!
- Queres mesmo que me vá embora? – murmurou uma voz familiar, que há muito me assombrava o pensamento. Lenvantei a cara.
- Margarida, que estás aqui a fazer? Pensei que tinhas dito que nunca mais me querias ver…
- E não. Mas precisei desabafar com alguém e o teu irmão apareceu lá em casa…
Fiquei em pânico. O que teria o João lhe dito?
- O João contou-me tudo Rui… porque não me disseste nada? Sabes que podes confiar em mim!
Não acreditava nas palavras que saiam da sua boca: o que pensaria ela de mim, agora que sabia do monstro que era, do que era capaz de fazer… comecei a chorar.
Ela olhou para mim, deu-me um abraço longo e murmurou-me ao ouvido:
- Estás terrível… Precisas de apanhar ar…
Saimos para o pátio nas traseiras e aí ficamos até longas horas da tarde, abraçados, apoiados um no outro.
- Já reparaste que agora os papéis se inverteram? Só me custa entender o porquê de guardares tudo isto para ti… de não pedires ajuda…
- O problema – retorqui – é que só me apercebi que precisava de ajuda quando não tinha mais forças para pedi-la. Mas contigo aqui eu sei que vai ficar tudo bem…
- Não achas um pouco irónico?! Apaixonaste-te por uma paciente que tem o mesmo problema que tu? Quem diria…
- Acho… Não achas irónico que o psicólogo que tenta “consertar” tudo e todos seja o que agora está a precisar de conserto?
- Acho é todos precisam de um arranjo durante a vida… quer dizer, não somos máquinas perfeitas, pois não? Os erros e os receios, as coisas boas e as coisas más, tudo o que nos acontece escreve a nossa história. É a forma como lidamos com elas que molda o nosso carácter, a nossa personalidade. E tu és um lutador, senão não tinhas lutado por mim… e eu espero ser a tua razão de lutar, porque tu és a minha… Não tenhas medo: olha para mim agora e lembra-te como era antes de te ter conhecido… Tu deste-me força para me tornar quem eu sou hoje. Aceita a minha ajuda!
Senti o vazio do meu coração começar a preencher-se, a minha alma a lavar-se.
O sol desapareceu no horizonte. Recordei-me do dia em que a conheci, e apercebi-me que já não tinha os mesmos horários, a mesma rotina… E apercebi-me das pequenas mudanças que ela causou na minha vida naqueles poucos meses em que estivemos juntos… e do quanto gostava dessas transformações. Sorri, e ela, ao ver-me feliz, abraçou-me ainda mais. E sem dúvidas ou incertezas murmurei-lhe ao ouvido:
- Amo-te.
Ela retorquiu:
- Convenceste-me.
E naquele perfeito momento eu sabia que ela estaria sempre ao meu lado para o que fosse necessário, ia ser o meu porto de abrigo na tempestade.
Ela ia ser a minha rotina.

Ana Cristina Quintans da Silva 

domingo, 9 de setembro de 2012

Porto d´abrigo


3º Episódio
Eu sorri. Já me estava a convencer. Mas respondi:
- Quando te convenceres a ti própria… demore o tempo que demorar. E quando isso acontecer vais ter uma razão forte, qualquer que seja, para continuares a lutar pela tua felicidade…
Sorrimos os dois. Passamos apenas algumas horas juntos e eu sentia que ela confiava em mim, nas minhas palavras, no meu sorriso. Também eu queria acreditar nas minhas palavras!
- Tenho que ir para o consultório. Já estou atrasado…
- Mas… eu pensei que iamos estar juntos o resto do dia… - senti o medo nos seus olhos.
- Eu volto… Mas, infelizmente, não és a única pessoa que precisa ser chamada à razão… com algumas pessoas demora mais tempo! Mas eu vou combinar um novo horário com a minha secretária para umas sessões contigo. Logo passo cá, pode ser?
Ela acenou com a cabeça. E eu regressei à minha realidade.
Passadas várias consultas com a Margariga (a maior parte delas passadas em parques, bibliotecas e cafés) conseguia ver uma grande mudança na sua atitude: estava mais sorridente, mais aberta, mais leve de espírito… mostrava uma curiosidade tremenda na minha vida, no meu dia-a-dia… falavamos de música, cinema, livros, do tempo que fazia, do futuro, do passado, de coisas que ambos gostavamos… e, no meio de toda aquela banalidade, embora estivesse consciente que o que aconteceu nunca se iria apagar da sua memória, aprendeu que tinha que seguir em frente e perseguir os seus sonhos.
No meio duma conversa no café da esquina da rua do meu consultório, disse-lhe baixinho:
- Convenceste-me Margarida…
Ela sorriu um sorriso aberto. Sabia exactamente o que eu queria dizer.
- Não sabes há quanto esperava que me dissesses isso, Rui! Não fazes ideia da ajuda preciosa, da companhia que me tens dado… nunca me vou esquecer que foste tu que me deste a mão quando eu mais precisei…
- Não tens que agradecer… Só estava a fazer o meu trabalho. Agora só te falta esperar pelo motivo para continuares assim, radiante!
- Acho que já descobri…
- A sério? Então, conta…
Ela hesitou, mas logo de seguida olhou-me profundamente e beijou-me.
Fiquei imóvel. Confuso. Não que não sentisse o mesmo por ela… o desejo, a paixão, a atracção, desde o primeiro instante que a vi… tudo o que vivemos juntos, tudo o que a ajudei a alcançar… mas não podia fazer isto a mim mesmo; não podia viver tudo isto outra vez… mais que tudo não podia trair o meu próprio irmão.
- Margarida, não. – murmurei.
-Rui… Eu pensei que tu também… que eu não estava a imaginar, que tu…
- Eu nada, Margarida… - tinha que ser cruel, impiedoso, frio; tinha que mentir com todos os dentes da minha boca e colocar uma máscara que em nada correspondia à alegria que, no fundo, sentia naquele momento. – Sou apenas o teu psicólogo… teu amigo, no máximo dos máximos! Um estranho a quem abriste a porta e que se limitou a fazer o mesmo contigo… Não confundas as coisas…
- Não me mintas, eu conheço-te! Eu sei que tu não sentes isso… - ela estava desesperada, como no primeiro dia em que nos conhecemos… a chorar desalmadamente.
- Tu não sabes nada sobre mim… eu até te posso ter mentido – (não tinha) – àcerca de tudo o que se passou… o objectivo era tu ficares melhor, nada mais…
- Não acredito…
- O problema é teu… Eu estou atentar pôr os pontos nos “i”s. Antes que seja tarde demais.
- Nunca mais te quero ver à frente…
Continua…

sábado, 8 de setembro de 2012

Porto d´abrigo


2º Episódio
Ele desviou os olhos, mas eu percebi a preocupação na sua voz apagada.
- Eu vou lá a casa. E depois digo-te alguma coisa, ok? Podes sempre contar comigo: às vezes posso ser muito frio e grosseiro, mas eu adoro-te João! Não quero te ver assim… vamos arranjar uma solução.
Durante o resto da tarde só conseguia pensar naquela rapariga e em todas as reacções que ela poderia ter quando me visse. Para esta situação não estava preparado… nem com três anos de aulas no curso, um de estágio e outro já a praticar, nem com todos os casos complicados, estapafúrdios, sentimentais e malucos que tive no passado ano. Não estava preparado para o que fosse acontecer. Seja o que fosse.
Quando cheguei a casa da Margarida admito que estava assustado. Mas ela precisava de ajuda, de alguém. E aparentemente eu tinha que ser esse alguém.
Respirei fundo e toquei à campainha. Niguém respondeu. Toquei uma segunda vez, terceira e, quando estava prestes a voltar as costas e desistir daquela ideia maluca de agir como um anjo caído dos céus para salvar uma frágil alma sofredora, a chave rodou e a porta abriu-se. Por trás dela, a Margarida, com cara cansada, olhos inchados, sem expressão; no entanto, era a rapariga mais bela que alguma vez vira, o que fez com que o meu coração acelerasse e o meu estomago desse um nó só de pensar na possibilidade de não a conseguir amparar.
- Sou o Rui, o irmão do João.
Ela olhou para mim com um ar amedrontado, mas quando ia começar a falar ela fez-me sinal para entrar e me sentar no sofá da sala. Estava tudo muito sombrio, muito vazio. A atmosfera estava pesada, como se uma nuvem negra pairasse sobre o tecto da sala.
- O João disse-me que vinha cá. Eu não quero falar.
- Antes de mais, trata-me por “tu”. Somo praticamente da mesma idade; chama-me Rui. Sei que não queres falar, mas podes ouvir-me?
Ela acenou afirmativamente, enquanto cruzava as pernas.
- Eu soube o que aconteceu e, primeiro de tudo, não te vou obrigar a relembrar o passado a não ser agora… não me parece o mais justo neste momento. Só te quero dizer que o que sentes agora é normal, mas não tem que ser assim para sempre. A culpa que sentes não é tua. Tu não causaste o acidente, não fizeste com eles morressem, não podes sentir-te assim.
Neste momento as lágrimas escorriam-lhe pelo rosto fora e caiam-lhe no colo. Ela permanecia calada e eu sabia que era uma questão de tempo até ela se revoltar, de berrar, de me insultar; era a calma antes da tempestade. Mas também sabia que não podia parar agorar. Estava a ser bruto, insensível, mas eu precisava de uma reacção, qualquer coisa que me ajudasse a erguê-la das cinzas do passado.
- Eles morrreram, mas tu estás cá, percebes? – elevei o tom de voz. - Que queres fazer? Ficar aqui presa até morreres? Não sentir nada para o resto da tua vida? – a este ponto gritei – Se foi para isto mais valia teres morrido com eles; só causas dor a quem está cá, aos teus amigos que se preocupam contigo!
Ela saltou do sofá, lavada em lágrimas, mandou-me um murro na cara e gritou:
- Não digas isso! Não fales mais nisso… eu não quero morrer… eu quero acabar o curso, quero arranjar um emprego, quero viajar, quero ser feliz… eles querem-me ver feliz, eu sei que sim! Eu quero… quero ajuda! –disse a soluçar.
Eu, caido no chão a sangrar, senti-me aliviado. Foi bom conseguir em cinco minutos o que muitos andavam a suar há meses. Agora tinha a sua colaboração. Agora ia ser mais fácil.
- Tens a certeza?! Não queres voltar para o teu quarto e enfiares-te na cama por mais dois meses? –perguntei num tom seco.
- Não! Não quero Rui… - e abraçou-se a mim a chorar, sem dizer uma única palavra durante o resto da tarde.
No dia seguinte passei logo de manhã pelo apartamento da Margarida, antes de ir para o consultório.
- Como é agora? – perguntou ela depois de me servir uma chávena de café – O que é que vais fazer para me consertar?
- Nada. – respondi calmamente. Ela olhou para mim em pânico. – Ainda não sei se queres mesmo a minha ajuda…
- Eu mandei-te um murro, falei contigo quando não falei com mais ninguém… Não achas que é um pedido de ajuda suficientemente claro?!
- Tu queres sobreviver a tudo isto… mas ainda não me convenceste de que queres viver… que queres encarar o que aconteceu e arranjar uma forma de lidar com o assunto, de continuares com a tua vida…
- E quando é que te vou convencer?
Continua…

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Porto d’abrigo


Concurso literário “Ler e Aprender”
Texto género narrativo escrito pela aluna Ana Cristina Quintans da Silva, concorrente e vencedora do 1º prémio no Concurso literário “Ler e Aprender”, Ensino Secundário, edição de 2012.
A Equipa d´O Ciclista
 Porto d’abrigo
1º Episódio
O dia começou como todos os outros – levantar às sete da manhã, tomar um duche rápido, vestir, descer as escadas e preparar o pequeno almoço enquanto as notícias passam na televisão, pegar no casaco pendurado à entrada da casa e seguir de automóvel para o consultório antes das oito e meia.
Esta é a estimulante rotina de todos os dias! Não é que a rotina não seja boa. Sinceramente, prefiro a rotina... Ela é confortante, talvez dos pequenos aspectos da nossa vida que podemos controlar, dos poucos momentos em que podemos relaxar porque sabemos que tudo vai decorrer de acordo o plano que definimos. Mas eu, melhor que todos os outros, deveria saber que a vida não é assim… não é uma história já escrita, é um livro que se vai escrevendo, página a página, dia após dia.
Quando cheguei ao edificio, Maria, a minha secretária já estava a trabalhar atrás do computador.
- Bom dia, Dr. Rui! O café já está em cima da sua mesa. E as fichas dos pacientes de hoje estão na primeira gaveta do lado direito.
- Como sempre tudo pronto! Obrigado Maria… e bom dia! Diga-me, é hoje que vem a nova paciente, a amiga do meu irmão, não é? – perguntei-lhe.
- Sim, é hoje… é a última paciente do dia. O João ligou para lembrá-lo da conversa que tiveram acerca dela…
- Mas eu é que sou psicólogo e ainda tenho que ouvir conselhos do meu irmão de 19 anos? – repliquei já um pouco irritado – Já lhe tinha dito! Eu não a vou tratar de forma diferente só porque o João a conhece… mas o que será que ela tem? Ele não me disse nada, só que era muito importante que ela tivesse ajuda o mais rápido possível…
- Deixe lá! Logo à tarde descobre… Quando o Sr. Simões chegar eu mando-o entrar, pode ser?
- Sim, sim… claro! -respondi.
A verdade é que aquele caso já me tirava noites de sono desde que o João tinha pedido a minha ajuda. O que seria tão grave que ele não me quisesse contar?
O resto da manhã decorreu sem problemas e o habitual almoço no café da esquina dava-me uma falsa sensação de segurança. Nem imaginava as implicações daquela tarde que mal tinha começado.
Enquanto me dirigia para o consultório, ouvi uma voz a chamar-me no meio da rua. Era o João.
- Rui! Ainda bem que te encontro... ia mesmo agora subir para falar contigo.
- O que queres João? - tentei reponder, o mais calmamente possível.
- Podemos subir? É sobre a Margarida… é importante.
- A Margarida vem cá ao fim da tarde… e eu recebi o teu recado e já te expliquei que não posso fazer o que me pedes. Mas quem é essa rapariga?! O que é que é assim tão grave que ela não me possa explicar? Vamos é para o meu escritório que precisamos falar sobre este assunto…
Subimos as escadas em silêncio. Pensava que seria fácil relacionar-me com os outros, ao seguir esta profissão, mas perdia a paciência até com o meu próprio irmão… que exemplo!
- Senta-te… Queres alguma coisa? A Maria deve ter umas bolachas no armário…
- Não, Rui. Quero mesmo é falar contigo. O assunto é sério… A Guida anda muito mal, não fala para ninguém, quer sempre estar sozinha…
- Isso deve ser só uma fase… algum namoro que deu para o torto, stress da universidade. Qualquer coisa do género…
- Mas será que não posso falar? A situação dela é mais complexa… ela perdeu os pais e a irmã num acidente de automóvel quando eles a iam visitar...
Eles eram do Norte e ela não tinha a possibilidade de ir a casa todos os fins-de-semana…e eles queriam fazer-lhe uma surpresa.
Senti um enorme peso na consciência. Julgei a rapariga, e julguei- a mal! Que situação… ela deveria estar a sentir uma dor tremenda.
- Desculpa João… não sabia que o caso era tão sério! Pensei que fosse uma coisa sem importância, que tu estivesses a exagerar… mas porque é que só me contaste agora?
- Porque… - respirou fundo, mas a sua voz tremia – porque pensava que ela ia falar contigo… mas ela está dormente, sabes? Não fala, não come nada, tirou todas as fotos deles das paredes, mal sai da cama… mas não chora, não diz nada sobre o assunto. No hospital, a psicóloga disse que não havia nada a fazer senão esperar. Mas a verdade é que já passou este tempo todo e ela continua na mesma. E eu estou a ficar desesperado… pensei que fosses capaz de ajudá-la, de lhe dar o apoio que ela nega dos amigos… que podesses ir lá a casa, falar com ela.
- Mas espera?! Ela não vem cá? – interroguei-me.
- Ela não quer niguém ao pé dela… mas eu acho que ela não tem muita escolha agora. Trazê-la aqui é mais complicado, e ainda por cima num espaço estranho, com uma pessoa desconhecida…
- Eu percebo João. Creio que fiquei surpreso com isto tudo… eu vou lá! Mas não prometo nada… a situação é delicada e se ela está sempre a rejeitar ajuda, não sei se vai gostar da ideia de um estranho ir bisbilhotar na casa dela… mas vou tentar.
- Obrigado Rui. Eu sei que é difícil! Não sabes o que isto significa para mim… o que ela significa para mim.
Continua…


quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Nunca é tarde para aprender!


5º e último Episódio
Todos os anos, cada chegada era uma festa, em que os foguetes troavam na minha cabeça, iluminando o meu sorriso. Mas cada partida parecia uma morte anunciada, um pouco de mim que ficava e um grande pedaço que se partia ao abalar para longe daqueles que amava.
Os anos passaram, os netos cresceram, casaram e o meu mais antigo sonho manteve-se oculto, preso no meu mais íntimo ser. Mas, permaneceu sempre ativo, tal vulcão em ebulição.
Aos setenta e cinco anos, bati com a mão na mesa e disse ao meu marido que o tempo passado em França já tinha chegado ao limite. Tinha chegado assim a hora de regressar definitivamente a Portugal. Para minha grande alegria até já tinha uma bisneta, filha do meu neto mais velho, que fazia seis anos em julho e em setembro, iria para o primeiro ano. Eu queria assim acompanhar o seu crescimento.
Finalmente, regressei!
O meu neto e a esposa tinham de trabalhar até tarde, pelo que a minha nora ia buscar a neta à escola e vinha sempre buscar-me para ficarmos as três em casa dela.
Num belo dia, o verão despedia-se com um resplandecente sol e Inês, assim se chamava a minha bisneta, presenteou-me com a mais bela das perguntas:
- Vó Ná, - como me chamava, - o papá disse-me que, quando era pequeno, queria ensinar-te a escrever, mas que tu estavas muito longe. Agora que estás cá, sou eu quem te vai ensinar!
Não era possível. Ali estava eu, passados mais de setenta anos, a ter a oportunidade que me negaram, quando era uma criança. Mas só que agora era tarde. Eu estava velha para aprender. Sentia-me cansada, esgotada. A vida não me tinha sido nada fácil. Não conseguiria pegar numa caneta e escrever. Nunca iria pegar num livro e ler as bonitas palavras que ele transporta. Nunca iria ser capaz! Não, era impossível!
Inês olhou-me nos olhos e sei que viu neles a minha incapacidade e a minha desilusão.
Eu não consegui enfrentar a minha bisneta. Mas ela chamou-me baixinho. Levantei os meus olhos e encarei-a com um ténue sorriso. Como era capaz de dececionar esta inocente criança que me olhava com aquela certeza e esperança?! Como podia eu desiludi-la?!
De repente, exclamei:
 - Sim, claro que me ensinas e claro que vou aprender!
 Fiquei surpresa com as minhas próprias palavras e, embora saídas nem sei bem de onde, foram minhas e iria honrá-las.
- Sabes, Vó Ná, basta que faças aquilo que eu faço na escola. Conheces as vogais, não é? Todos as sabem. Agora, basta começares a escrever. Hoje aprendi a primeira, aprendi a fazer o “i” e é essa que vais aprender.
E eu que pensava que a primeira letra era o “a”. Afinal, precisava mesmo de aprender do início.
A minha nora, por sua vez, ofereceu-me uma elegante pasta de cabedal castanha com o meu nome bordado e lá dentro estavam os cadernos e o estojo com tudo o que era necessário para eu escrever. Agora, já não havia a lousa nem o giz, mas também não era importante, estes eram novos e meus. E eu voltei a ser criança outra vez!
Dediquei-me de alma e de coração a aprender a escrever as letras, depois a formar as sílabas. Aprendi os ditongos, as palavras, as frases e consegui redigir o meu primeiro texto.
Hoje, faço oitenta anos e, sentada à mesa do meu jardim, tenho à minha frente alguns textos que podem não ter o brilho dos grandes poetas, podem ter erros na construção das suas frases, podem até conter um ou outro erro ortográfico, mas são escritos pela minha mão. Esta mão calejada por uma vida difícil de trabalho árduo, a quem foi negado aquilo que considero ser um bem essencial. Esta mão que satisfeita faz deslizar a caneta, que dança em círculos e em linhas direitas, desenhando as letras que eu escrevo para no final poder ler estas palavras perfeitas, que a minha jovem professora me ensinou. Claro que teve a ajuda da avó!
Hoje posso dizer: aprendi a ler e a escrever.
Já tão tarde?! Podem interrogar-se. Mas não! Eu agora sei que nunca é tarde para aprender. Posso dizer que a expressão “Burro velho não aprende línguas” não faz sentido.
Eu que sei falar português e francês, que percorri milhares de quilómetros, que já fui sujeita a várias intervenções cirúrgicas e que já vivi mais anos do que esperava viver. Eu, Nazareth, nascida entre as duas grandes guerras, eu não sabia ler, nem escrever.
Posso dizer que a força de uma criança fez renascer em mim a criança que estava escondida e que me deu o estímulo para aprender. Me deu aquilo que outrora fora negado e que eu sei que tinha direito.
Devo tudo o que está nestas folhas aos meus dois netos, à sua mãe e à minha bisneta que conseguiu concretizar o sonho da sua bisavó.
A minha crença transformou assim o meu sonho em realidade. Hoje, sou completamente feliz, porque consegui concretizar o meu primeiro e último sonho.
Só me resta dizer que nunca é tarde para aprender!

Sofia Matos, nº 21, 8º Ano, Turma C