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quinta-feira, 24 de setembro de 2020

Nossa casa, nosso lar

Vencedor do Género narrativo do Ensino adultos

Parabéns, Diogo!

O Inquisidor Atormentado.

Paris,1582

Estava um calor estranho na pequena capela do palácio da justiça, centro do poder legislativo e judicial da cidade de Paris, capital do reino de França. Isto, por si só, nada tinha de anormal, pensou o austero e devoto monsenhor Claude Frollo, inquisidor da perversidade herética e confessor pessoal de sua alteza Luís XI de França, pela graça de Deus rei dos franceses. Para um homem habituado ao cheiro de corpos queimados e para quem a presença do fogo purificador é uma constante diária tanto nas suas manifestações externas como internas o calor é o estado normal da vida, o estado normal de uma alma com a mais reta das consciências, uma alma que sacrificou a sua humanidade pela preservação de um bem maior, de um ideal abstrato, um ser invulgar e privilegiado que não sente dúvida, inquietação nem temor, somente tranquilidade e certeza da justeza do seu caminho, da sua integridade moral e da justeza da sua conduta. É que, bem vistas as coisas, o frio e o calor são estados de alma, duas polaridades opostas que caracterizam a condição dual da natureza humana, dividida entre princípios e ações, entre formulações teóricas e práticas concretas, entre o conhecimento das convicções e a dificuldade da sua implementação diária. O homem que temos perante nós é diferente do comum dos mortais, pelo que raramente sente o frio da incerteza e da inquietação, sente somente o conforto do calor proveniente da confiança inerente a uma vida virtuosa, livre de toda a mácula, de toda a culpa, de tudo o que possa ser repreensível ou suspeito. Este homem formidável era tido como um santo pelos homens da corte, um são Miguel encarnado na terra para purgar a sociedade de todos os males, podendo fazê-lo com a mais limpa das consciências dado parecer tão isento de defeitos morais, mesmo de humanidade. O santo não tinha vícios, era dado ao jejum, à meditação, à oração e a todo o tipo de penitências. Não tinha família chegada, tendo os seus pais falecido quando era criança. Mesmo na altura monsenhor Frollo não se lembrava de sentir qualquer amor pelos seus pais. Na altura, isto inquietava-o, dado que as almas caridosas da aldeia alardeavam tanto acerca da importância do amor filial, da misericórdia e de todas essas virtudes que demandam a carência e a exclusão social. No entanto, com o tempo, acabou por aceitar as coisas tal como elas são, não tendo voltado mais a questionar a sua natureza, as suas intenções, ou quaisquer outros desígnios que a providência tivesse para si. De que é que servia tanto sentimentalismo, afinal de contas? Este rapaz vindo de uma família profundamente modesta tornou-se num dos homens mais brilhantes da sua geração, formou-se em teologia e em direito pela universidade de Paris, na altura a mais prestigiada da Cristandade, tornou-se respeitado e objeto de admiração entre os seus pares e chegou ao topo da hierarquia social do reino graças à sua virtude e ao seu estoicismo. A sua única fraqueza humana, até este dia, era uma certa dose de orgulho, mas quem é que o podia culpar? Tal como dissemos este homem não tinha defeitos, era um exemplo na sua virtude e na sua conduta. Era respeitado por todos e era implacável no que diz respeito à forma como cumpria o seu dever, no seu zelo no que concernia a eliminar os flagelos da heresia, da falta de probidade, da licenciosidade e da impiedade de espirito. Tinha acabado com milhares de vidas impias ao longo da sua santa vida e sentia-se satisfeito, profundamente satisfeito com tudo o que tinha alcançado. A ferocidade com que tratava todas as detestáveis existências que lhe chegavam às mãos e o enorme poder que detinha faziam com que todos sentissem muita admiração e muito temor por ele. Quantas e quantas vezes não lhe tinham gabado a sua piedade, a sua austeridade e a sua virtude? E o seu coração enchia-se de regozijo. Beata Maria começou ele a rezar virado para Notre Dame, a catedral dedicada a santa Maria mãe de Deus, protetora dos castos e dos santos. Sabes que sou um homem justo e bom, sabes que me posso orgulhar da minha virtude. E podia de facto, pensou ele. Se não eu, pensou ele para consigo, então quem? Não há na terra ser mais nobre, mais virtuoso, mais cumpridor e mais digno do que eu. Só eu sou digno de purgar este mundo de todo o pecado e de toda a iniquidade. Confiava sempre nas pessoas certas, não se fiava em contos nem em cantigas de gente rústica, simplória, pagã. Ainda na semana passada o conde de Toulouse tinha denunciado uma mulher ao santo ofício por esta ter feito uma considerável fortuna através de uma exploração hábil e supersticiosa das mentes simples e campónias da região através de práticas medicinais ocultas dependentes, alegava a bruxa, de um bom conhecimento da terra e das suas propriedades. Ainda que muita gente tivesse, de facto, ficado curada de inúmera enfermidades através destas práticas, tudo isto se ficava a dever ao maligno e a conhecimentos pagão indignos, não provinha, certamente, de um conhecimento auto adquirido por uma mulher simples e sem instrução. Depois de devidamente submetida à tortura a mulher acabou, finalmente, por confessar os seus crimes e declarar por escrito as boas intenções e o zelo na fé do conde de Toulouse, a quem a impia mulher tinha antes declarado, de modo injurioso e blasfemo, como sendo um “mentiroso” e um “cão sarnento”. Uma vês que tinha tido tal custo com o processo da dita mulher o conde pediu para ficar com as suas riquezas e propriedade, uma recompensa justa por um tão nobre serviço à fé e aos costumes. A vulgaridade do povo incomodava e repugnava o ministro inquisitorial. Beata Maria continuou na sua prece, tu sabes que sou muito mais puro do que a plebe comum, vulgar, fraca e licenciosa. Se alguma vez este santo homem tinha cometido erros ou transgressões isso havia sido com a melhor das intenções. Cerca de vinte anos antes do momento que estamos a descrever aconteceu uma coisa que mudaria para sempre a vida do inquisidor. Um grupo de ciganos, uma raça de gente promiscua dada à ladroagem, à libertinagem e dada a confundir o povo cristão com os seus costumes promíscuos, tentava entrar ilegalmente em Paris. Monsenhor Frollo, no seu zelo na fé e determinado a cumprir a sua santa missão de tornar Paris na nova Jerusalém, numa cidade pura, bela e aprazível a Deus, tinha interdito a entrada de tal gente na cidade. Montou uma cilada aos ciganos e conseguiu capturá-los em flagrante na sua tentativa criminosa de entrarem na cidade de Deus. Eram três, dois homens e uma mulher Reparou que a mulher trazia um saco consigo e, julgando que se tratassem de coisas roubadas tentou aprende-lo No entanto a meretriz, percebendo a intenção do reverendo monsenhor agitou-se, escapou dos seus guardas e começou a fugir Monsenhor Frollo ficou furioso Apesar da sua condição de eclesiástico monsenhor Frollo tinha um carinho especial por animais, esse era, de facto, o seu único traço de humanidade, especialmente por cavalos, sendo um digno praticante da arte da equitação. Perseguiu a mulher, que corria desalmadamente, com ferocidade, galopando no seu temível cavalo preto. A mulher foi suficientemente ágil para conseguir alcançar a Catedral de Notre-Dame, batendo com estrondo no portão e clamando por santuário O ministro eclesiástico alcançou-a e agarrou no saco mas ela fez uma força desalmada com a mão para o tentar agarrar. Perante isto o ministro de Deus, imbuído de santa e justa ira, deu-lhe um pontapé violento que a fez tombar e cair morta no chão. O ministro sentiu uma estranha e alegre sensação ao contemplar o corpo morto e ensanguentado da mulher. Uma estranha sensação de… prazer? Não, impossível. Para este homem o prazer era o maior de todos os vícios e que havia naquela cena, uma mulher caída no chão, morta, completamente esvaida em sangue, que lhe pudesse trazer prazer? Não, era um homem de Deus, não sentia prazer Inspecionou o saco e o que descobriu deixou-o apavorado Um monstro com a cara completamente deformada, um pequeno demónio do abismo, um bebé do inferno que parecia encarnar toda a fieldade e toda a anormalidade que o ministro dedicara anos a fio a aniquilar Hesitou por alguns segundos e ponderou o que fazer. Havia um poço ali perto O ministro tomou o pequeno demónio consigo e preparava-se para o atirar ao poço Eis, no entanto, que uma voz se sobrepôs Não, gritou o arcediago da Catedral. Frollo desprezava o homem. Falava muito acerca da misericórdia e muito pouco acerca da justiça, virtude teológica e jurídica indispensável para a manutenção da ordem social da Cristandade. De que servia a misericórdia contra bandidos e forasteiros? ,pensou o inquisidor O arcediago ajoelhou-se e começou a chorar Depois, com olhos pesarosos e lacrimejantes, ergueu a cabeça e olhou para o frio e caustico inquisidor:

-Vê, contempla o sangue inocente que derramaste sob o olhar de Notre-Dame.

O significado daquelas palavras e do olhar que as acompanhava era claro como a água. O arcediago procurava condenar o ministro por ter derramado sangue inocente sob o olhar atento de Notre-Dame. Como era isto possível?:

Estou livre de culpa. Limitei-me a perseguir uma criminosa em fuga.

O arcediago não desistiu.

-Ias acrescentar mais uma vida inocente há dor e ao pesar que infringiste hoje sobre Notre-Dame?

Frollo estava a perder a paciência com o homem.

-Tenho a consciência limpa, replicou

- Podes enganar-te a ti mesmo e a todos os que estão a teu serviço. Podes dizer que todos os teus caprichos e todos os teus crimes são motivados pelo mais santo temor a Deus. Mas garanto-te que nunca irás esconder a verdadeira natureza das tuas ações dos olhos atentos, divinos e maternais de Notre-Dame.

Disparates, disparates e mais disparates…E no entanto, que sensação tão estranha sentiu então…Arrepios, dores de cabeça… O velho e venerável arcediago permanecia com o dedo apontado para Notre-Dame, para os anjos e santos, guerreiros, reis e profetas da História Sagrada. Como que tomado por uma espontaneidade curiosa Frollo ergueu o seu olhar na direção apontada pelo arcediago e viu…viu e sentiu temor, algo que nunca antes havia sentido. Viu as expressões dos santos e dos reis da História Sagrada, viu São Miguel arcanjo a dirigir-lhe o mais reprovador dos olhares e satanás a sorrir-lhe, um sorriso zombeteiro e alegre, por poder ficar com a alma do incauto juiz. E no topo de tudo a santíssima virgem Maria, com o seu filho ao colo, derramava lágrimas e fechava os olhos, num clamor de tristeza por Frollo ter matado uma mulher inocente e agora se preparar para matar o seu filho. Pela primeira vês na vida Frollo duvidava das suas santas intensões e temia pela sua alma imortal.

- Que faço?, perguntou Frollo ao arcediago

-Tomai a criança e educai-a como vossa, respondeu o eclesiástico

Frollo empalideceu:

-Como te atreves a impingir-me este disforme?

   Aquilo era demais para ele, era impossível de imaginar Como era possível que lhe fossem impingir tomar aquela criança como sua, como se fosse seu filho? Um demónio disforme como seu filho, impingirem-lhe isso a ele, um homem do clero, um sagrado inquisidor que não foi feito para ter filhos nem família, que não foi feito para dar amor e sim para espalhar o santo temor a Deus e á sua divina majestade no mundo Retidão, hierarquia, o respeito pela autoridade, a manutenção e preservação da ordem natural das coisas nas suas proporções adequadas, uma ordem assente numa diferenciação espiritual e social entre grandes e pequenos, entre o campo e a cidade, entre o bestial e o humano, entre a realeza e os plebeus, entre o céu e o inferno, eram estas coisas que descreviam a religião do monsenhor Frollo, não se preocupava com a misericórdia, com a caridade, com a filantropia, com o amor ao próximo, nada disto o cativava, nada disto lhe despertava fascínio nem interesse Eram a ordem, a manutenção da ordem e do privilégio e a aplicação sistemática e criteriosa da justiça que o fascinavam e inspiravam a sua espiritualidade retorcida e maniqueísta O seu Deus era um Deus feito à sua imagem e semelhança, um Deus que veio trazer “não a paz mas sim a espada”. No entanto por muito ilusória e narcisista que fosse a conceção que este homem tinha de Deus ele acreditava nela e seguia com firmeza e fanatismo Por isto, por temer, com todas as suas forças, a danação eterna que pregava, Frollo recompôs-se e disse:

-Que assim seja. Sem dúvida que há aqui propósito e desígnio, nada provém do acaso Sem dúvida que este horrível ser ainda me vai ser útil um dia.

E foi assim que terminou aquele episódio. Sem culpas, com todas as certezas do seu lado. Sem dúvida que as suas acções tinham sido planeadas pela divina providência com algum propósito misterioso. Batizou a criança com o nome de Quasimodo, um nome que significa “meio-formado”. Educou-o o melhor que pode, deu-lhe teto e abrigo, no campanário da catedral onde, a seu tempo, a disforme criatura pode ser usada como sineiro. O miúdo era obediente e sabia servir. Naquela manhã, no entanto, enquanto estavam a almoçar e a rever o alfabeto, depois de tanto tempo a estupida criatura ainda estava a aprender, o rapaz deixou escapar que queria ir ao festival dos tolos. Será possível ser-se mais tolo do que isto? Como é que uma criaturinha tão feia, tão grotesca e tão disforme pode ser tão estupida a ponto de achar poder sair ileso de uma aventura dessas? O cruel e pecaminoso mundo não tolera os disformes, não tolera a fealdade e a abominação, explicou-lhe imediatamente Frollo Tinha de se colocar no seu lugar e permanecer no campanário De contrário seria, sem dúvida, linchado pela população. Frollo tivera de ir ao festival dada a sua condição de funcionário público embora o abominasse com todas as suas forças. Uma manifestação de decadência, de desordem, de licenciosidade, um bando de camponeses, de criminosos e de ladrões a reverterem a ordem natural das coisas, um interminável e fedorento cheiro a álcool A meio do festival o apresentador daquele funesto e degradante evento, um cigano de nome Clopin, anunciou aquele que seria um dos momentos altos do festival: A dança da cigana Esmeralda. Quando a cigana apareceu e dançou Frollo, o austero inquisidor, sentiu algo que nunca havia antes sentido na vida…e isso preocupava-o. Entretanto chegou a altura de ver quem tinha a melhor mascara a mais horrível de todas De acordo com o costume do festival aquele tivesse a máscara mais horrível, a cara mais feia, seria coroado “rei dos tolos”, tal a audácia e falta de respeito da plebe para com sua majestade. Viu-se mascara atrás de máscara, uma atrás outra, até se chegar a…a Quasimodo Frollo não queria acreditar que o idiota lhe tinha desobedecido, estava vermelho de raiva, possuído pela cólera Naturalmente a mascara não saiu, era a sua medonha cara, pelo que a plebe ficou horrorizada No entanto, para surpresa de Frollo, depois de um momento de ultraje, de pavor e de insultos ao lerdo e imbecil corcunda, Clopin conseguiu fazer com que os campónios aclamassem Quasimodo como rei do festival precisamente por ser tão feio. Frollo ficou fora de si ao ver o contentamento e o deslumbramento de Quasimodo que, a dada altura, lhe acenou e lhe sorriu timidamente, numa expressão que era um misto de alegria e de desculpa Uma alegria tola e desobediente, o rei dos tolos de facto, pensou Frollo, encolerizado pela desobediência e pelo sorriso estampado na cara da aberração que fora obrigado a criar. A meio daquele carnaval, no entanto, dois guardas da comitiva de Frollo lançaram tomates à cara do corcunda, o que fez com que a multidão começasse a gozar com ele e a maltrata-lo fisicamente. Quasimodo apelou ao homem que o criou, ao seu “amo”, como Frollo o habituou a chama-lo, para que o salvasse e que parasse com a humilhação. Frollo hesitou durante alguns segundos antes de decidir que o rapaz precisava de aprender uma lição, precisava de aprender a nunca mais lhe desobedecer e a nunca mais se aventurar a sair da catedral No entanto, uma vez mais naquele dia, naquele maldito dia repleto de fantasmas, de demónios e de surpresas desagradáveis, a cigana Esmeralda dirigiu-se até ao ponto fulcral da humilhante cena e soltou Quasimodo, que se encontrava atado a uma corda. Frollo repreendeu-a e disse-lhe para sair dali imediatamente. A cigana, no entanto, desafiou-o dizendo-lhe clamar por justiça para com os fracos e os inocentes da sociedade, fracos e inocentes como Quasimodo e os ciganos, e libertou o corcunda. Como se atrevia aquela mulher, aquele demónio ímpio a desafia-lo, a ele, o garante da ordem e da autoridade temporal e espiritual parisiense? Que tipo de mulher era aquela? Uma Eva, uma serpente, uma tentadora, uma incitadora do caos e da desordem?…Nunca antes, ao longo da sua vida dominada pelo poder e pelo controlo, alguém se atrevera a desafia-lo daquela maneira, a faze-lo cair no ridículo perante as massas campónias e desordeiras de Paris. A mulher despertou-lhe sentimentos estranhos e perturbadores… o que era aquilo e que quereria dizer? Frollo ordenou de imediato ao novo capitão da sua guarda, Phoebus de Châteaupers ,que prendesse a cigana mas esta conseguiu fugir usando um truque de magia barato Mais tarde Phoebus foi encontrar a bruxa na catedral mas ela clamou por santuário e o querido arcediago, sempre generoso e manso de coração, impediu Frollo de arrastar a rapariga dali para fora. Dando a impressão de sair da catedral Frollo escondeu-se atrás de uma coluna e, enquanto o arcediago conduzia Phoebus para fora do santuário Frollo agarrou em Esmeralda e puxou-lhe os braços para trás das costas com força. O inquisidor advertiu a cigana de que se saísse do seu novo “santuário” a apanharia num instante, dizendo-lhe ser paciente e que sabia o quão difícil é para os ciganos ficarem parados muito tempo no mesmo sítio. Depois disto o santo homem foi tomado por um instinto estranho, uma força inconsciente que parecia ditar os seus atos e toldar-lhe o discernimento. Tendo-a sua prisioneira, o ministro sentiu o aroma fresco e cheiroso do seu cabelo e, mais uma vez agindo por impulso, cheirou-lho, encostando delicada e suavemente o seu nariz no cabelo da cigana. Esta detetou o seu gesto e libertou-se violentamente dos seus braços Perante a insinuação audaz da cigana de que o santo homem teria intenções pouco apropriadas este replicou citando a astucia dos ciganos no que concerne a distorcer a verdade de modo a poluir as inocentes mentes com pensamentos lascivos e profanos. E foi assim o dia do homem santo. Foi este o dia que gerou o calor da noite, o calor que estava a sentir na sua capela privada no palácio da Justiça A sua cabeça estava um turbilhão de ideias, de indagações, de confusões…de sensações. Que poderia significar aquilo tudo? Perante a evidente santidade deste homem temente a Deus como nenhum outro e guiando-se ferozmente pelos padrões e doutrinas da santa madre igreja, uma imagem de si próprio e dos seus atos no qual ele acreditava fanaticamente, como podia ele estar a sentir um desejo que contradizia tudo aquilo que jurara, todos os votos honrosa e castamente cumpridos, todos os padrões de conduta que tentara impor na sociedade, castigando todos os que estivessem fora da ordem normal? A imagem de Esmeralda, do seu corpo, do seu cabelo, da sua voluptuosidade, pairava sobre si, não lhe saia do pensamento Eu sou irrepreensível, pensou para consigo o homem, não há nada de que me deva sentir culpado. A sociedade precisa de mim, eu ergo-me, eu elevo-me acima da escória banal. E, no entanto, pela primeira vez na vida, este são Miguel retorcido e bestial tinha dúvidas acerca das suas intenções. Teria mesmo mandado queimar milhares de pessoas devido ao seu zelo na fé? Teria tido ele outros motivos, motivos tão obscuros e tão profundos que nem mesmo ele parecia saber quais eram? Este homem detestava ler, detestava os livros e a leitura, detestava o mero ato de pensar, uma vez que era um adorador da ordem, da disciplina, da lei, da hierarquia e da uniformidade de doutrina e de comportamentos. O mero ato de ler implica uma predisposição interior ao pensamento, ao questionamento e à indagação. Consequentemente implica também uma espécie de rebelião interna Frollo não era dado a pensar, o mero ato de pensar dava-lhe dores de cabeça, dores de cabeça como a que estava a ter naquele momento E, não obstante, e por uma vez, não conseguia deixar de o fazer, não conseguia deixar de pensar, por uma vez o indagador rebelde e o inquisidor ordeiro caminhavam de mãos dadas, como se fossem a mesma pessoa. Recordava-se daquilo que o atraíra para o ofício de inquisidor: o gosto pelas torturas, pela violência, o cheiro das fogueiras e dos corpos a queimar. Recordou-se até de alguns episódios da sua infância que o fizeram pensar: O seu pai tinha-o educado com o intuito de que ele crescesse e se tornasse “puro e belo”. Tal como mencionado atrás, o eclesiástico não amava o seu pai, não se recordava de lhe sentir qualquer amor ou carinho O problema era intrínseco, por muito que o seu pai quisesse que ele fosse “puro e belo” este homem nunca entendera bem a noção que o seu pai tinha de pureza e de beleza Uma manhã havia acordado e, como que por um lampejo de inspiração súbita, entendeu finalmente Enquanto o seu pai lhe falava da beleza da caridade, do amor, da filantropia e das boas obras Frollo interessava-se pela beleza da guerra e da pilhagem. Enquanto o seu pai lhe falava da beleza das borboletas Frollo achava mais belas as mariposas. Enquanto o seu pai lhe falava da beleza do mandamento não matarás Frollo deleitava-se com a beleza do grito de guerra Deus lo vult (Deus assim o quer, o grito de batalha associado à primeira cruzada convocada pelo papa Urbano II no concilio de Clermont em 1095). A sua fé e o seu temperamento eram militantes, não caridosos. Enquanto Frollo se angustiava com todos estes pensamentos uma aparição demoníaca de Esmeralda dançava provocadoramente entre as chamas da lareira. Diz-me Maria, rogou Frollo angustiado, se sou puro e santo, porque a vejo a dançar, porque me enfeitiçou o seu olhar?. Sinto-a, vejo-a, o sol no seu cabelo arde descontroladamente em mim. Angustiado, exclamou, é fogo do inferno, na minha carne a arder, este ardente desejo está a levar-me a pecar. Perante isto, prostrou-se no chão, temendo pela sua alma imortal. Começou a alucinar, ou seria uma visão?. Seja como for viu ao seu redor os membros do sacro colégio dos cardeais, vestidos com toda a dignidade das suas vestes cardinalícias, envergando o vermelho simbolizando o sacrifício de Cristo na cruz e o seu próprio juramento de derramarem o sangue pela fé caso necessário. Cercavam-no, julgavam-no. O grande inquisidor estava a ser julgado pela mais alta autoridade religiosa pelos seus crimes. No entanto, não era culpado de nada. Isto era óbvio, tinha de ser obvio, era obvio para ele. Mea Culpa, tentaram os cardeais que ele dissesse e confessasse, mas o inquisidor protestou a sua inocência e a sua retidão moral. Por minha culpa não, protestou. Foi a cigana, a cigana lançou-me este feitiço. Mea Máxima Culpa, exclamaram eles e o inquisidor afiançou não ter culpa por o desígnio divino ter dotado o demónio de mais poder do que um simples homem. Prostrado em loucura e em temor Frollo rogou a Deus e à Virgem Maria que lhe dessem um sinal, que destruíssem Esmeralda e as suas tentações voluptuosas…senão que seja minha e só para mim, exclamou, consciente da sua blasfémia. Passado este clamor um guarda veio trazer noticias. A capela passou de um vermelho semelhante às chamas do inferno para um azul celestial da mais sublime beleza.

- Monsenhor, exclamou o guarda, a cigana fugiu.

Mas que devaneio seria aquele? Tinha a catedral completamente cercada, circundada por homens de fio a pavio, era impossível a cigana ter fugido. Tremeu de raiva, só de pensar que Esmeralda lhe fugiria, que nunca mais a veria. Não, isso não aconteceria, pensou determinado. Colocaria Paris a ferro e fogo se fosse preciso, mas a cigana não lhe escaparia.

- Sai idiota, gritou Frollo para o guarda. O guarda sai e fechou a porta com ar de singular tristeza, algo estranho para um mero subordinado habituado a receber ordens dadas com vós dura e autoritária, e quando saiu o azul celestial que coloreava a sala desapareceu por completo para dar lugar a um vermelho completo, pesado, carregado, muito mais infernal do que antes, um autentico inferno na terra.

- É fogo do inferno, cantarolou o ministro de modo frenético, quase como que em sinistra prece, tens bruxa que escolher. Ou eu ou o fogo. Sé minha ou vais arder. Posto isto prostrou-se no chão pedindo a Deus piedade tanto pela alma de Esmeralda como pela sua. No entanto reiterou com dureza, uma dureza que se manifestava tanto no rosto como no coração:

- Ou vai ser minha ou vai arder.

O grande inquisidor repleto de princípios e de um compromisso extremo para com a ortodoxia desses princípios e o Ubermensh nietzschiano desprovido de escrúpulos, de moral ou de princípios, “para além do bem e do mal”, encontraram o seu ponto de encontro nesta estranha personagem. Este homem era um composto de paradoxos e de motivações, revelando cada um deles características e motivações igualmente perversas mas em constante contradição entre si. Esta estranha personagem era uma amálgama de todos os tormentos e corrupções que podem afligir o ser humano. Nele confluíam e conviviam de mãos dadas a erudição e a vulgaridade, a piedade e a blasfémia, a consciência contrita e o sentido de superioridade, a devoção e a profanidade, o ascetismo e a licenciosidade, tudo isto contribuindo para acobertar um imenso ódio e um impulso de destruição de proporções maciças, dantescas, genocidas, hitlerianas. A acompanhar esta metamorfose contínua de monstruosidades, esta combinação entre o sublime e o grotesco que tanto fascinava William Shakespeare, estava a catedral de Notre-Dame, guardiã e sentinela espiritual de Paris. O homem sobre o qual incide a nossa história temia a revolução da imprensa e a distribuição da palavra escrita, temia o triunfo do livro sobre o monumento, temia o triunfo da cultura e do progresso sobre a incultura e a servidão. No entanto, e apesar de todas as tentativas em contrário, a palavra escrita triunfou, bem como a revolução da imprensa, bem como o avanço tecnológico. Que a sabedoria e o conhecimento do certo e do errado nos permitam, a nós Humanidade, usá-los com o devido apreço e com o devido cuidado tendo em conta o bem-estar coletivo e o desenvolvimento e preservação dos valores essenciais da civilização.

Diogo Oliveira Dias Nolasco, Centro Qualifica, Agrupamento de Escolas de Anadia

 

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