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quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Sofia de Matos Pedrosa Vencedora 1º Prémio Género Narrativo - 3º Ciclo - conclusão

 Uma viagem por um paraíso aquático

Parte II

- Sim. Os meus pais ofereceram-me um este ano.
- Sendo assim, veste-o e vem que eu levo-te a sítios aos quais nunca ninguém foi.
- Mas, mas… os meus pais… a minha irmã?!
- Eles estão todos a descansar, não estão? Nem vão dar pela tua falta. Vem!
Rapidamente subi ao meu quarto, vesti o meu fato de mergulho e… lá estava eu pronta!
Entrei no mar, como o meu professor de mergulho me tinha ensinado, embora com a ajuda do mar tivesse sido mais fácil e, de repente, vi-me num lugar indescritível.
As cores, a beleza. Enfim, era o paraíso!
As formas das rochas, as algas que pareciam ser agitadas pelo vento e não pelas águas, os peixes multicolores que nadavam à minha volta pareciam feitos de papel colorido. Também vi barcos antigos naufragados, alguns provavelmente portugueses e até espanhóis, cheios de eventuais tesouros por descobrir. Havia algas de cores como nunca vira. Havia peixes palhaço que me fizeram lembrar o Nemo. Mais à frente os corais. Como podia haver corais nas nossas águas?! Vi o sorriso que o Mar me fez e vi que ele me tinha transportado para bem longe da minha praia. Mas não, eu não estava assustada. Sabia que podia confiar nele. Pela primeira vez estava junto daqueles magníficos animais, que me faziam lembrar plantas coloridas que sabia estarem a ser destruídas pela incompetência e ganância do Homem, pela sua avidez em criar apenas a seu bel-prazer e esquecer-se da natureza. Da bela natureza que é de todos. Mas aqueles corais, que o Mar me mostrava, estavam intactos, lindos, extraordinariamente belos.
Vi as ostras, que por encanto se abriram e mostraram as suas belas pérolas. Quase caí na tentação quando, com a devida autorização do Mar, toquei numa e a fechei na minha mão pronta para a levar comigo para a oferecer à minha mãe. Porém, voltei a colocá-la na concha e vi o sorriso maroto do Mar que parecia ter lido o meu pensamento.
A minha viagem de sonho continuou, viajei pelos sete mares, vi o rift, vales profundos, passei junto de ilhas submersas, falhas, eu sei lá! Um mundo que eu jamais imaginei.
Vi baleias, que pareciam arranha-céus, tubarões que me fizeram estremecer de pavor, vi orcas com os seus belos vestidos negros e brancos, vi tantos e belos animais que jamais pensava existirem e, finalmente, tive o meu tempo de sonho, pois apareceram os golfinhos. Nesse preciso momento, atiraram-me ao ar, dançaram comigo, brincaram, nadei com eles, empurraram-me, chapinhámos. Foi tão mas tão divertido que nunca imaginei que alguém alguma vez pudesse ser assim tão feliz.
Mas, estava na hora de voltar. Os meus pais e a minha irmã deviam estar em cuidados. Nem sei quanto tempo tinha passado. Ia ouvir das boas! Isso é que ia!
- Sofia? - chamou-me o Mar.
- Sim! - respondi eu - Eu sei, temos de voltar! Por favor, ajuda-me, tenho de voltar muito rápido!
- Voltar para onde?
- O quê?!
- O quê pergunto eu! - exclamou a minha mãe junto a mim. - Vá lá, acorda, para irmos para a praia.
Olhei em redor e vi que estava na varanda da nossa casa. Afinal, claro como podia o mar falar comigo e levar-me numa viagem magnífica pelos sete mares, ainda para mais num tão curto espaço de tempo?! Só mesmo em sonhos!
Mas tinha valido a pena. Até sentia o sabor do sal no meu corpo! E tinha aprendido tantas coisas que não sabia até ao momento e isso é que eu não conseguia explicar.
Levantei-me a custo e lá fui deambulando até à praia.
Quando chegámos, a minha mãe chamou-me e apontou para o meu fato de mergulho e indagou:
- O que é que ele está a fazer ali, Sofia? Por que não o levaste de manhã?
Eu fiquei sem palavras. O que era aquilo? Como era possível? Corri para ele e constatei que estava ainda molhado. Eu tinha-o levado de manhã, não tinha? Pousei-o e corri até ao mar. O Mar fez deslizar uma pequena onda até aos meus pés e eu só soube dizer:
 - Obrigada!
Pareceu-me ouvi-lo sussurrar: “Sê feliz!” Mas não tive a certeza.
Voltei a correr para junto da minha mãe e peguei no meu fato, com a certeza de que o meu futuro estava traçado e que o meu amor pelo mar era uma realidade que jamais acabaria e que o meu sonho poderia ter sido apenas isso: um sonho mas que eu o iria tornar numa realidade!

Sofia de Matos Pedrosa, nº 27, 9º Ano, Turma C




terça-feira, 3 de setembro de 2013

Sofia de Matos Pedrosa Vencedora 1º Prémio Género Narrativo - 3º Ciclo


Parte I

Uma viagem por um paraíso aquático
Lembro desde sempre o meu fascínio pela tua imensidão e grandiosidade. Sim, falo de ti. Às vezes, pareces-me azul, quando as tuas águas estão mais calmas, serenas e pareces convidar-nos a entrar e a partilhar contigo horas de puro deleite. Outras, verde. Nesses momentos, sinto um arrepio na espinha e parece-me que esse mar que tanto adoro está furioso com alguma coisa, com alguém. Mas, por muito que sejas mau, também nesse momento gostaria de poder explorar-te, de entrar em ti e conhecer-te, de saber porque estás assim. Sei que não me farias mal, pois eu não te quero mal. Apenas queria ir conhecer-te. Outras e, nessas sim, és mesmo assustador… és negro, espumas e provavelmente, mesmo que eu quisesse, não me deixarias entrar. Expulsar-me-ias, batendo-me com as tuas fortes vagas, fazendo com que o meu frágil corpo não aguentasse as tuas investidas de touro enraivecido.
Sim! Tu tens muitas facetas.
E eu, provavelmente, sou uma tola, pois adoro todas elas. Todas elas me fascinam!
O rugir das tuas vagas durante o tenebroso inverno, a tua lassidão no esplendoroso e quente estio. Sim! Tu fascinas-me.
Chamo-me Sofia. Vivo em Anadia. Teoricamente vivo no litoral. Mas, na realidade, sinto-me tão distante de ti! E como eu gostaria de te ver todos os dias assim como de te poder tocar, sentir com os meus dedos, mesmo quando estás frio, mesmo quando espumas e a tua fúria é imensa.
Quando era pequenina, íamos muitas vezes passear até junto de ti. Eram dias tão felizes! Porém, agora, as responsabilidades são outras. Há sempre tanto para estudar e nem sempre temos tempo. Portanto, as nossas visitas são adiadas.
É por isso que adoro o verão, quando estamos de férias.
No entanto, todos aqueles dias em que acordo naquelas manhãs sonolentas e em que os meus pais me tentam arrancar dos meus lençóis quentinhos e aconchegantes, dizendo-me que já chega, que já são horas, “mas horas para quê?” pergunta-me o meu subconsciente, fico um pouco aborrecida e daí que eu pense: “Deixa-te estar!”. Mas, claro que depois prefiro acatar as suas ordens, em vez de escutar as sábias palavras dos meus pais. De seguida, quando me apercebo que estou atrasada, que afinal é para te ir ver, tal é a minha alegria que abro de rompão a doçura do vale que me protegeu durante mais uma noite repousante e corro para a minha casa de banho, onde um revigorante banho me dá a força necessária para o sermão que eu sei que estou prestes a escutar.
No momento em que desço para, finalmente, tomar o pequeno-almoço e partirmos para junto de ti, já todos me aguardam com aquela expressão: “És sempre tu! És sempre a mesma.” E, por vezes, sou e tenho a consciência de que nem sempre consigo mudar!
Mas a minha ansiedade depressa faz esquecer o meu atraso e o meu pensamento voa até ti. Até ao mais profundo do teu ser.
Imagino o meu futuro cuidando de ti, dos teus seres.
E, neste meu deambular pelo meu futuro, quase nem me apercebo que chego junto a ti.
A minha irmã já corre pisando a tua areia, enquanto os meus pais tentam encontrar um bom espaço para colocar os necessários apetrechos para nos protegerem dos raios solares.
São férias mas eles, preocupados como são, não descuram da nossa saúde.
Tiro a escassa roupa que cobre o meu fato de banho ejuntamente com a minha mãe, de quem eu herdei este gosto pela água, e da minha irmã, estou prestes a deixar que me acaricies os pés, primeiro suavemente e depois de um modo mais intenso, deixando-os completamente submersos pela areia que depositaste sobre eles.
Apenas um olhar da minha mãe foi suficiente para perceber e então corremos as três para, após um impecável mergulho, rasgarmos a tua onda perfeita e virmos depois à tona e nadarmos ao sabor dos teus caprichos. Todos os dias de verão gostamos de fazer este mesmo ritual.
Ficamos a nadar durante um tempo infinito até sentirmos que a fome é superior ao gosto de estar contigo e termos de satisfazer as nossas necessidades.
O almoço é feito à base de peixe grelhado e saladas. Logo a seguir, e depois de um breve passeio, regressamos a casa. Contudo, eu gosto de ir para a varanda da nossa casa que é suficientemente alta e dela posso contemplar-te e falar contigo, pelo menos no meu pensamento…
- Sabes?! Eu quero estudar os organismos que vivem em ecossistemas de água salgada, como por exemplo os que habitam no teu meio e das relações entre eles e com o ambiente, que és tu, o mar.
E eis que te ouço afirmar:
- Mas, tu sabes que eu sou muito extenso e por isso, na tua vida tão minúscula não me vais conseguir estudar todo, nem a mim nem aos seres vivos que em mim habitam.
Entre risos, acabo por te dizer:
– Claro que não, Mar! Nem é essa a minha intenção. Eu sei que os oceanos cobrem mais de 71% da superfície da Terra e, assim como o ambiente terrestre é muito diverso, o ambiente aquático também o é. É por isso que tens muitas formas de vida e elas são muito diferentes. Desde os seres microscópicos, como o plâncton, incluindo o fitoplâncton, que é muito importante, como tu bem sabes para a produção primária no teu ambiente marinho e outros animais de maior dimensão, como são os cretáceos, como é o caso das baleias gigantes, ou os golfinhos que são os que eu mais adoro e que pertencem à família Delphinidae.
- Infelizmente, há a outra parte. Há os Homens que poluem as minhas águas. Eu sei que o meu grande volume de água, a minha agitação e composição física e química foram usados como despejo de imensos esgotos urbanos e industriais.
- Sim, mas atualmente já há campanhas a decorrerem e as pessoas, o público em geral já está muito mais atento a esses pormenores e garanto-te que a despoluição está em curso.
- Mas também a minha grande riqueza em peixes, que levou o Homem a explorar-me e que criou um enorme desequilíbrio na minha fauna?!
- Sim, também sei disso. E sei que foi difícil de evitar. Mas sei que também há campanhas de monitorização constante dos ecossistemas marinhos, feitos pela ecologia marinha. Por exemplo, a biologia marinha também está a utilizar ramos da ciência aplicada, como a aquacultura de peixes, mariscos e algas, componentes importantes para a nossa dieta alimentar. E isso vai salvaguardar mais as tuas espécies.
- Talvez seja uma solução. Vamos aguardar para ver. Mas sabes, Sofia, pelo que vejo, já não precisas de vir estudar-me. Tu já sabes muito sobre mim.
- Quem me dera, Mar! Contudo, tu bem sabes que isto não é nada. Quero que saibas que eu, em 2010, tive uma prenda maravilhosa dos meus pais. Fui interagir com os golfinhos. Eles deram-nos algumas explicações sobre a vida marinha e sobre a família Delphinidae. Eu senti-me como se nada soubesse. Ah! Como gostaria de ser como eles! Gostaria assim de poder trabalhar com os golfinhos, estar com eles, nadar com eles, bem como visitar e conhecer as tuas profundezas. Para isso, sei que tenho de estudar muito, que ainda tenho um longo percurso a trilhar, mas sei que tenho vontade para o fazer e que vou conseguir.
- Claro que sim! Então, porque não começas já? Tens um fato de mergulhadora?


Continua...

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Joana Pereira Moniz - Menção Honrosa Género Narrativa Ensino Secundário - conclusão

Umas férias e um mistério - conclusão

Parte II

Ficámos a discutir ideias até o brilho do luar entrar na tenda. Então, fizemos uma fogueira e ao som melodioso da guitarra do Mateus dançámos e cantámos até o sono nos invadir a alma.
  Acordámos, cansados, mas felizes, já o sol ia alto. No que restava daquela manhã, demos um passeio pelo rio e recordámos alguns dos momentos do nosso primeiro ano do secundário.
  Durante a tarde, voltámos à praia. Jogámos à bola e às raquetes e, quando íamos refrescar-nos um pouco nas águas cálidas do mar, eis que algo tinha dado à costa mesmo à nossa frente. Era uma garrafa…
  A Ana ficou enervadíssima, pois ainda no dia anterior tínhamos procedido à limpeza do mar e do areal. No entanto, o Mateus, com a sua perspicácia e espírito de aventura, observou que a garrafa continha algo aprisionado no seu interior. Fez deslizar a rolha de cortiça e, sob a abóbada das nossas três cabeças, lá estava um pedaço de papel envolto numa fita de seda vermelha. Peguei no fragmento como se valesse ouro e, com a voz marcada pelo espanto e pelo entusiasmo, li:
              “Muitos mistérios o mar guarda
              Alguns difíceis de entender
              Mas se o teu coração ouvires
              O horizonte poderás ver”                           ATURG
  Ficámos boquiabertos, espelhando os nossos rostos uma surpresa imensa. Até que a Ana inquiriu:
  -Quem terá escrito isto? Assinou como ATURG!?
  Ao que o Mateus respondeu:
  -ATURG!? ... É GRUTA! Está escrito ao contrário! É isso! Um dos mistérios do mundo está numa gruta!
  Corri a abraçá-lo de entusiasmo e então, caminhámos pela costa à procura de uma gruta. Encontrámos uma onde os pescadores guardavam as redes, mas nada mais que isso.
  Ao final da tarde, sentei-me na areia e o Mateus sentou-se perto de mim. Em virtude do frio, ele tirou o casaco e aconchegou-me com ele. Deitei a cabeça no seu ombro e a sensação de conforto e proteção era enorme. Estava dispersa a ouvir as ondas a dar à costa e o canto das gaivotas, quando, ao apurar a audição verifiquei que num certo local da costa as ondas batiam menos intensamente…devia existir uma reentrância nas rochas! Corri imediatamente para lá, com o Mateus e a Ana no meu encalço.
  De facto, existia lá uma gruta. À partida, era uma gruta normal, mas quando me virei e vislumbrei o horizonte e o pôr-do-sol como nunca assim vira, percebi que aquela era a que procurávamos. Seguimos para o seu interior e encontrámos um pequeno lago, no qual o sol incidia pelas fissuras da gruta. Ficámos fascinados com a sua água pura e serena e, ao tocarmos na mesma, algo emergiu à superfície… Era um pequeno baú de madeira… A Ana tirou o baú da água e, quando todos lhe tocámos para sentir a magia da madeira envelhecida, este abriu-se melodiosamente. Dele irradiava o brilho dourado de três búzios do mar. Cada um de nós pegou num, e com eles ouvimos o sussurro do oceano … Guardámo-los como amuletos e, desde então, percebemos que a amizade e o amor são o maior mistério da humanidade.
  Envolvemo-nos num longo abraço e, tendo o céu como limite, deitámo-nos na areia a ver as estrelas do firmamento… Ao meu lado estava o Mateus. Olhou-me nos olhos, deu-me a mão e assim ficámos até ao raiar da manhã…

Joana Pereira Moniz, 10º A, nº 12

Escola Básica e Secundária de Anadia

domingo, 1 de setembro de 2013

Joana Pereira Moniz - Menção Honrosa Género Narrativa Ensino Secundário

Parte I

Umas férias e um mistério

Acordei numa manhã de verão alegre e perfumada, com o sol irradiando pela abertura da tenda para me sussurrar que um novo dia tinha nascido, dia esse que seria o primeiro dia das férias no parque de campismo na foz do Guadiana, a escassos quilómetros da praia.
Pelo canto do olho, observei que a Ana, a minha melhor amiga, continuava no seu sono profundo. Saí da tenda e, envolto no brilho resplandecente daquela manhã estava o Mateus, sentado num tronco de árvore, a preparar o nosso pequeno-almoço.
-Bom dia! – saudou-me ele com uma alegria notória na face.
-Bom dia! – retorqui eu.
Conheci o Mateus na primavera, quando comecei a frequentar o grupo de teatro da minha terra e achava-o perfeito. Escusado será dizer que fiquei radiante quando, no primeiro dia de aulas do 10º ano, o vi entrar na minha sala de aula com a sua alegria natural e a expressão misteriosa nos seus olhos. Todos os dias de manhã passávamos sorrateiramente um pelo outro a entrar para as salas e saudávamo-nos apenas por sorrisos. Nas aulas, encontrava-o muitas vezes a olhar para mim, mas, devido à timidez, nunca tínhamos mantido uma conversa fluente. Até que no dia dos seus anos eu ganhei coragem e desejei-lhe um feliz aniversário. No fim das aulas desse dia, ele convidou-me para comer um gelado. Fomos a pé até ao café do senhor José e, saboreando o gelado, prosseguimos até ao parque onde passeámos entre as árvores envoltas em mistério. Conversámos sobre as aulas daquela manhã, vimos os patos e demos comer aos peixes do lago. Até que o pôr-do-sol chegou e com ele o seu brilho, que nos envolveu numa nuvem de ternura indescritível. Enquanto eu admirava a beleza do astro-rei, Mateus propôs-me que passássemos as próximas férias juntos. Aceitei o convite e agora ali estávamos nós (eu, ele e a Ana).
Depois do meu banho matinal sentia-me especialmente feliz naquelas que eram as minhas primeiras férias num parque de campismo. Acordei a Ana e juntos tomámos o pequeno-almoço com a bênção de um sol luminoso e árvores verdejantes.
Nesse dia combinámos ir à praia, visto termos aderido a uma campanha de limpeza do mar “Um mar limpo para um planeta azul”. Enfim, encontrámos muitos objetos a poluírem o mar: garrafas vazias, redes de pesca rasgadas, pedaços de toalhas de praia, …

No decurso desse dia, percebemos o significado de trabalho conjunto e a importância de preservar o oceano. Ao final do dia, já no aconchego da nossa tenda, relembrámos as aulas de Ciências Naturais, nas quais tínhamos falado das marés negras e da destruição que estas causam ao nível da fauna e da flora, destruição essa que em alguns casos era irreversível. Recordámos também algumas fotografias do Greenpeace que vimos na palestra de sensibilização, que nos marcaram a todos pela realidade da poluição dos oceanos que as mesmas transmitiam.

Continua ...

sábado, 31 de agosto de 2013

Clara Verdade Loureiro - Menção Honrosa Género Narrativo - 3º Ciclo

O rapaz que queria ser mar

De entre todos os sentimentos, há um que me fascina particularmente: a liberdade. Não há nada melhor que poder ir aonde quisermos e quando quisermos ou ainda fazer o que desejarmos, precisamente quando quisermos. Porém, nem todas pessoas gozam dessa felicidade e muitos são os que se encontram presos por muros e paredes que outros erguem ou que eles próprios constroem.
Esta história, que vou passar a contar, é a de um rapaz que se chamava Joaquim e que não tinha nem uma pequena noção de liberdade, pois nunca a possuíra.
Joaquim era um rapaz doce, meigo, simpático e bem-educado, mas era também muito inseguro e facilmente manipulado. Fazia tudo o que os seus amigos da escola lhe pediam, concordava com tudo o que decidiam e sempre que lhe pediam uma opinião, dava sempre a que lhe parecia agradar aos outros, mesmo quando no seu íntimo não era aquilo que realmente sentia ou queria. De facto, não conseguia contrariar a vontade de ninguém, nem conseguia dizer o que sentia, pois temia que os outros reagissem mal, que não estivesse à altura das suas expetativas ou que ficassem desiludidos consigo.
Joaquim vivia acorrentado por si próprio e triste, muito triste.
Quando queria relaxar, o rapaz ia para a beira-mar observar o oceano, um dos únicos sítios onde descontraía e se refugiava de tudo o resto. E lá ficava o tempo que queria. Gostava assim de ver as gaivotas, as ondas, as conchas. Apreciava cada centímetro daquela vista maravilhosa.
Joaquim apreciava o mar. Aliás, admirava a força do mar e, no seu íntimo, ambicionava ser como o mar. Pode parecer uma comparação estranha, mas está cheia de verdade. Sim, porque não há nada mais livre que o vasto oceano. Viaja por onde quer e quando lhe apetece. Por outro lado, toca todos os continentes. Quando quer, é calmo e quente, a imagem da paz e tranquilidade. Noutras alturas agita-se, eleva-se e enche- -se de espuma que parece lembrar a sua raiva e assustar quantos o observam. Tem tanto poder o mar! É tão livre!...
 Joaquim, em contrapartida, sentia-se frágil. Por mais que quisesse, este rapaz seria sempre, na melhor das hipóteses, um pequeno e fraco ribeiro que corria sempre para o mesmo lado e nunca deixaria de ser assim, se continuasse a ignorar os seus próprios sentimentos. Para sua infelicidade, assim foi durante muito tempo.
Certo dia, os seus pais decidiram mudar de casa e ir viver para o interior do país. Como sabiam que Joaquim era tão fácil de manipular, nem sequer pediram a sua opinião. Quando ele teve conhecimento da notícia, sentiu um forte aperto no coração. Como iria ele sobreviver sem o mar? Sem a sua inspiração? Sem o conforto que este lhe dava quando estava triste, quase sempre triste consigo mesmo?!
Um sentimento de angústia inundou o interior do rapaz. Sentia-se perdido, abalado. Lembrou-se que por enquanto ainda tinha um sítio para se refugiar. Então, correu e correu o mais rápido que conseguia para a praia.
Durante breves momentos, Joaquim pensou em como seria poder expressar-se, combater os seus medos e então, apercebeu-se que, quanto mais ele resistisse à vontade das outras pessoas, maior seria a sua liberdade. De repente, começou a sentir no seu peito a força das marés que o queria sacudir e fazer despertar. O cheiro do mar invadiu-lhe os pulmões como se fosse um remédio que o queria trazer à vida. À vida que ele tinha que viver sem medos. Joaquim não soube como, mas de repente sentiu-se mais confiante e determinado que nunca e entendeu de imediato que aquele era o momento certo para falar com os pais e partilhar com eles os seus sentimentos e desejos.
Já na companhia dos pais, Joaquim não sabia bem por onde começar ou qual seria a altura certa para falar no assunto. Assim que conseguiu a sua atenção, Joaquim deu-lhes a sua opinião sobre a mudança e como tal, falou-lhes da sua necessidade do mar, e também de como se sentia, quando era obrigado a fazer tudo o que os outros queriam.
Para o rapaz, este foi o momento mais importante da sua vida até então, pois teve um comportamento totalmente diferente daquele a que estava desde sempre habituado. Foi doloroso… Contudo, foi libertador.
 Os pais acabaram assim por dar prioridade aos sentimentos do seu filho e entender o que na realidade o assustava todos os dias. Perceberam o quão difícil era para o Joaquim querer partilhar uma opinião mas contrariando a sua vontade, com medo que não fosse aceite pelos outros. Valorizaram a sua coragem ao, finalmente e pela primeira vez, assumir uma posição: a “sua posição”.
No final, tudo ficou bem pois os pais de Joaquim decidiram não mudar de casa, e o rapaz perdeu todo o medo de se expressar, deixando assim de ser apenas mais um pequeno curso de água controlado por tudo e todos. Cresceu para se tornar um oceano com vontade própria, mas que dia a dia aprendia a lutar contra as tempestades que surgiam sem, no entanto, contrariar a sua natureza.

Clara Verdade Loureiro, nº 7, 8º C
ESCOLA BÁSICA Nº 2 DE ANADIA
AGRUPAMENTO DE ESCOLAS DE ANADIA
Ano letivo: 2012 - 2013

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Raquel Neves Seiça - Menção Honrosa Género Narrativo - 2º Ciclo

O mar e a rosa

Há muito tempo, um jovem foi condenado, por algo que estava inocente, a passar vários anos numa prisão que ficava numa pequena ilha isolada do mundo. Nesse lugar quase deserto, apenas havia algumas casas e um hospital.
Um dia, quando ele estava a limpar a sua cela, ouviu uma linda voz. Olhou lá para fora e viu uma rapariga a apanhar girassóis ali perto.
- Olá, como te chamas? – disse o prisioneiro.
- Eu? Eu chamo-me Rafaela – disse ela. – E tu, como te chamas?
- Eu chamo-me João – respondeu ele.
- E porque estás preso? – perguntou a Rafaela.
- Eu estou preso por uma coisa que não fiz – respondeu ele.
- Isso não devia ser assim - disse a rapariga. – Bem, eu tenho de ir embora.
- Espera, podes vir ver-me amanhã? – perguntou o rapaz.
- Claro que sim!
Mas o que ele não sabia era que a nova amiga sofria de uma doença chamada “Cancro”. A Rafaela ficava quase todos os dias no hospital, mas durante algumas horas, ia lá para fora ver os girassóis. Eram lindos!
No dia seguinte, a Rafaela veio visitar o João. Quando chegou lá, viu-o a chorar e perguntou-lhe:
- João, porque estás a chorar?
- Eu não estou a chorar. Eu sou um homem – respondeu o João.
- Claro que estás, tu não tens de ter vergonha, só porque és um homem. Agora conta-me o que foi – disse a Rafaela.
- Eu fui espancado pelos guardas por não ter feito nada e agora o meu corpo ainda me dói – respondeu ele.
- Ah, foi isso?! Desculpa. – disse a Rafaela.
- Porque te desculpas? – perguntou o João.
- Porque o meu pai trabalha aqui, ele é o xerife. Ele chegou tarde a casa e eu perguntei-lhe porquê. Ele disse-me que tinha dado uma lição a um dos prisioneiros. Se eu soubesse que eras tu, então tinha-lhe dito para não fazer isso – respondeu Rafaela.
- O teu pai trabalha aqui?! – surpreendeu-se João – Olha que não sabia, mas não tens de te desculpar.
- Estou feliz – disse a Rafaela. – Tenho de te dizer uma coisa.
- O quê? – perguntou o João.
- Eu não posso vir amanhã visitar-te porque vou fazer uma operação – respondeu ela.
- Porquê? – perguntou o João.
- Porque eu tenho cancro. – respondeu a Rafaela.
- Não acredito! Então para dar sorte para a tua operação, toma isto – disse o João, dando uma rosa à amiga.
- Ah, muito obrigada, João! – agradeceu a menina, muito comovida.
No dia seguinte, Rafaela estava a sentir muitas dores mas, quando olhou para a janela e viu a rosa do João, sentiu-se melhor e com coragem para enfrentar aquele momento difícil que se aproximava.
Quando a operação acabou, Rafaela já não tinha dores. Olhou para a janela e sorriu ao ver outra vez a rosa que o João lhe tinha dado. Era linda e perfumada! Depois viu o mar lá fora e teve uma ideia. Apenas não sabia que o pai a observava fora do quarto, pensando em quem lhe teria dado aquela rosa.
Subitamente, sem dizer nada, ele entrou no quarto, pegou na rosa e esmagou-a com a mão. Rafaela ficou profundamente triste e, com os olhos rasos de água, saiu da cama e pegou nos restos da rosa.
No dia seguinte, sentindo-se melhor, arranjou forças para visitar o amigo. João, vendo-a limpar as lágrimas, perguntou-lhe:
- Rafaela, tu estás bem?
- Sim, estou bem. A operação correu bem, mas o meu pai estragou a rosa que tu me deste – respondeu a menina.
 - Não faz mal, não tens de te preocupar, vais ver que ainda te vou dar mais rosas do que podes imaginar – respondeu o rapaz, consolando-a.
-Muito obrigada por me animares! Olha, eu tinha pensado numa surpresa para ti – disse a Rafaela. – Onde guardam as chaves para abrir a porta?
- Guardam-nas ali, no bolso daquele polícia que está a dormir – respondeu o João.
A Rafaela foi buscar as chaves sem acordar o polícia e depois abriu a porta da cela.
- Onde me levas, Rafaela? – perguntou o rapaz.
- Aqui ao lado. – disse ela.
João viu um lindo mar, sentiu a brisa fresca na cara e sentiu a água a vir até aos seus pés. Mas, de repente, começou a chorar.
 - O que foi, João? Não gostaste da surpresa? – perguntou a Rafaela.
- Não, não é nada disso – disse o João. – É que foi aqui que fui abandonado pelos meus pais, depois fui encontrado por um casal que me adotou. Mas, alguns anos depois, eles foram assassinados e culparam-me pela morte deles.
 - Que triste história! Então foi por isso que foste preso? – disse  Rafaela.
Passaram horas a olhar para o mar, até que sentiram as suas mãos uma em cima da outra e ficaram corados. Depois João falou:
- Rafaela, eu tenho uma coisa para te dizer.
- O que é? – perguntou ela.
 De repente, João deu um beijo à amiga, mas o pai estava a vê-los e acabou por se afastar sentindo que tinha de intervir. Rafaela e João acabaram por se beijar e ela não sabia o que dizer.
- Eu… eu não sei o que dizer.
- Responde-me só a esta pergunta – disse o rapaz. – Tu gostas de mim?
- Sim…eu gosto de ti – disse a jovem.
Depois, levou o amigo para a prisão para não pensarem que ele tinha fugido. Ela não queria, mas os guardas iriam à sua procura se não aparecesse.
- Amanhã, eu venho ver-te para podermos ver o mar outra vez, só tenho de ir ao hospital, primeiro. Adeus! – despediu-se a Rafaela.
No outro dia, logo de manhãzinha, o rapaz conseguiu tirar as chaves da porta da prisão ao polícia e foi à praia para voltar a ver o mar com a Rafaela.
Enquanto estava à sua espera, o pai, que já tinha planeado tudo, mandou os guardas à praia. Os guardas apontaram as suas armas ao João e, quando ele se virou para trás a pensar que era ela, foi atingido muitas vezes. Ao cair no mar, largou a rosa que iria oferecer à Rafaela.
 Naquele momento, a rapariga ainda estava no hospital ansiosa por ir ter com o amigo. Mas, de repente, sentiu uma dor vinda do seu peito e achou estranho, pensou que podia ser alguma coisa relacionada com o João. Então, saiu do hospital e foi ter à praia.
Quando lá chegou, viu muitos polícias e o pai à frente. Ela correu para ver o que era e viu o João morto na água. Correu até ele, abraçou-o com força até que viu a rosa no mar. Começou a chorar, apoiando a cabeça no peito dele.
O pai arrastou-a. Ela tentou libertar-se, mas não conseguia. Começou a chorar, o pai levou-a para o hospital e trancou a porta do quarto. Ela não conseguia falar, só ficava ali calada com os olhos frios, a olhar para a rosa que tinha pegado no mar.
Olhou pela janela e viu o mar agitado. Levantou-se da cama, abriu a janela e saltou para fora. Foi até a um penhasco, olhou para o mar e a única coisa que disse foi:
- Finalmente podemos estar juntos!
Saltou para o mar com um sorriso, murmurando:
 - João…
No hospital, as enfermeiras foram avisar o pai que ela tinha desaparecido. Ele correu para o quarto e a única coisa que viu foi uma janela aberta a mostrar o mar e no parapeito uma rosa fora do vaso deixando cair a última pétala.

FIM


Raquel Neves Seiça, nº 19, 6º A

Escola Básica nº 2 de Anadia

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Concorrente ao Género Narrativo - Eu sou o Mar! - Conclusão

Parte II

Crianças! O que foi que eu fiz?! Ó Posídon, o que foi que eu fiz? E ai vem o arrependimento, pois olho e vejo os rostos sofridos daqueles que como eu choram a destruição. Vejo o seu desespero, a sua angústia, a sua perda e a sua desilusão.
O que posso eu fazer, Posídon?
Decido, então, acalmar as minhas águas e tento levar todos os humanos lentamente até à praia. Vejo que alguns ainda podem ser salvos, outros, não sei.
Na verdade, tenho de mudar, tenho de pensar antes de agir incontrolavelmente. Como pode a minha sede de vingança atuar sobre tudo e todos, sem pensar que há alguns que não têm culpa nenhuma?! Como pude pensar em agir sobre todos de igual forma?! Como sou inconsequente… Leviano, mau carácter. Eu, um herói. Como sou bom a autoelogiar-me. Claro, quem haveria de o fazer! Os meus animais e plantas? Os Homens? Não! Só podia ser eu. E só eu para decidir a sorte dos outros e fazer aquilo que considero o certo e o errado. Só eu para atuar pela natureza toda e fazer a destruição. Sim, a destruição. Foi o que eu fiz. Agora, olho para as praias e é o que vejo: destruição. Famílias que já não o são. Crianças que já não têm pais, pais que já não tem filhos e eu, eu estava aqui feliz. Feliz porque tinha sido o grande e consciente causador de tudo isto. E porquê? Porque há um conjunto de Homens que como eu são inconscientes e que só pensam neles, na sua economia, no seu bem-estar, esquecendo-se que há um Mundo para gerir, que há uma natureza que não nos pertence, que há uma natureza que é de todos nós!
Nem sempre sou aquele mar agitado, mau, cruel!
Gosto de sentir os pescadores, que com os seus barcos mergulham as suas redes nas minhas águas para retirarem os meus peixes, pois sei que com eles vão alimentar outros seres… é a lei da vida, eu sei. Não sou egoísta. Mas, claro, não gosto de exageros!
Gosto de espraiar-me ao longo das praias que ajudei a criar, umas mais arenosas, com as suas belas areias tão brancas que até à neve faz inveja. Outras mais pedregosas, mas que também gostam de ser visitadas pelos humanos por causa das minhas águas bem quentinhas. Outras, apesar da cor mais escura das suas areias, não deixam também de os atrair. Há para todos os gostos.
Gosto daquele jovem humano que sulca, num perfeito nadar, as minhas águas com aquela arma em busca do meu mais belo polvo e que, num jogo de esconde e agarra, acaba por sair vencedor, levando finalmente o seu troféu para terra.
Sinto aquele barco que faz aquela menina deslizar sobre as minhas águas até que, cansada, acaba por deixar-se cair sobre mim e então, eu e ela em uníssono rimo-nos da sua aventura e salpico-a com uma branca espuma para ela ver que não lhe faço mal. Ela responde-me atirando-me com a minha própria água e rindo em sonoras gargalhadas. O barco volta, enfim e ela sobe, deixando-me um pouco triste por me deixar ali sozinho.
Também me sinto feliz, ao ver aquele par que nada esquecido e não vê que a noite já tombou sobre as minhas águas. Sinto o calor que os seus corpos irradiam e lanço sobre eles uma vaga mais intensa, alertando-os para a hora tardia e vejo-os, então, desaparecer por entre as rochas que há muito abandonei!
Mais à frente, peço ao meu amigo vento que levante um pouco e ajude aqueles que estão sobre as minhas águas para que aqueles velejadores possam estimular a adrenalina e dar asas à sua emoção.
E sabe tão bem ver grandes e pequenos a correr na minha direção e vê-los saltar e mergulhar nas minhas ondas e agitar as minhas águas. Alguns, e não pensem que são apenas os mais pequeninos, deleitam-se a verter as suas próprias águas nas minhas, mas essas são pequenas insignificâncias que até me fazem rir.
Vejo aqueles que incautos se deleitam ao sol e depois, vêm até mim refrescar-se e eu tento lentamente mostrar-lhes que não devem entrar de imediato nas minhas águas.
Observo aquelas crianças que gostam de fazer pocinhas junto a mim e eu brinco com elas, derrubando os seus castelos de areia. Mas, elas persistentes voltam e voltam a construí-los e eu sempre a destruí-los. Como me delicio, eu e elas nesta constante brincadeira de crianças.
Também faço ondas mais pequeninas para aqueles humanos, sim, aqueles que parecem temer-me, e que não vão molhar muito mais do que as pontas dos pés. Sempre que uma mini, mas mesmo muito mini onda lhes tenta chegar, eles fogem espavoridos para o mais longe possível de mim e tentam refugiar-se na areia escaldante, onde saltitam entre um pé e o outro. Mas depois lá voltam, quase a medo, pois o calor assim o exige.
Depois aparecem alguns humanos completamente vestidos. Levantam as calças, as saias, ou lá como se chamam as roupas e quando decido mandar uma onda mais forte e se molham todos, é engraçado vê-los aos gritinhos… parecem crianças!
Lindas são as crianças, com as suas boias e/ou braceletes coloridas, que sem medo tentam vir a mim. Mas aí vêm os pais com os seus mil olhos e mais mil a protegerem-nas de tudo e de todos e dando instruções e mais instruções, recomendações, avisos, quase não os deixam ser eles. Eu não lhes faço mal, porém grito-lhes, mas eles não me escutam. Então, tento brincar com eles e lanço um pouco de água. Por vezes, cubro-lhes a cara para os fazer rir, a uns sim, mas a outros faço-os chorar. Os pais ficam logo aflitos e eu também! Pois, penso eu, o ser humano é mesmo estranho!
Mas logo, logo, esqueço este momento e sigo noutra direção, pois vejo os surfistas que me aguardam vestidos a rigor, a maioria de preto, com as suas belas pranchas aguardando as minhas ondas. Sei que esperam os meus famosos tubos, como eles lhes chamam e eu não os quero desiludir. Por isso, clamo a minha força, não a destruidora, mas aquela que eles esperam, e enrolo para eles as minhas águas e deixo que eles se maravilhem bailando como só eles conseguem e que desfrutem desse magnífico espetáculo que só eu e eles conseguimos proporcionar. E eis toda a nossa plenitude, a simbiose perfeita entre o mar e o Homem!
E, assim, vou vivendo, umas vezes ajudando o Homem, dando-lhe felicidade, outras vezes, quando me apercebo das suas injustiças e vejo que ele me está a destruir e que ao destruir-me também se está a destruir a si próprio e nos está a destruir, chamo-lhe a atenção.
Eu, o mar, não suporto ver ninguém, nem mesmo o Homem, a destruir este belo planeta que é de todos e que é a nossa Terra.

 Adriana de Matos Pedrosa, nº 1, 9º C 

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Concorrente ao Género Narrativo - Eu sou o Mar!


Parte I

Eu sou forte, poderoso e domino. Sim, domino!
Mas agora? Pareço adormecido?… Não!
Há sempre uma, mesmo que leve, agitação que me faz vibrar. Há sempre uma corrente, fria ou quente, que me agita as entranhas.
O meu ondular, mesmo que quase impercetível, existe. A vida que há em mim suaviza-me o caráter.
Eu jamais adormeço!
Eu atraio aquele que considero o meu maior amigo e inimigo: o Homem!
Eles querem derrotar-me, quebrar-me, tirar o que é meu!
Não gosto muito daqueles que andam naquelas coisas, a que chamam barcos, motas e outros meios com motor, pois poluem as minhas águas. Mas, vá lá! Até os tolero, pois não são muitos nem são muito grandes. Os banhistas, que são aqueles que tomam banho nas minhas praias, é que deveriam reclamar mais, pois às vezes andam a nadar no meio de toda aquela poluição, mas se eles não se importam… quem sou eu?!
Também há uns objetos que de vez em quando passam lá pelo céu. Já ouvi os humanos chamarem-lhe avião. Dizem que fazem propaganda, que transportam mercadorias, que transportam pessoas. Não percebi muito bem. Só sei que também poluem. O Céu disse-me que lhe deixa um mau cheiro bem como rastos e ruídos. Eu só sei que, quando chove, as águas vêm com um sabor diferente, por isso, também não é nada bom.
Os humanos são mesmo esquisitos! Fazem tudo para prejudicar o ambiente. Mas, olhando para eles, parecem felizes. Pelo menos, a maioria deles.
Pior do que isso é que sinto os gritos dos meus pobres animais capturados nas imensas redes dos seus barcos e deixo sempre que me tirem mais um pouco de mim…
Sinto as brocas que perfuram o meu fundo e sugam o meu crude e deixo…
Sinto os barcos que passam e lançam sobre mim os seus resíduos e, mais uma vez, eu deixo…
Sinto os camiões que rasgam as minhas areias, desagregam as minhas rochas e as transportam, não sei para onde.
Sinto os canos que lançam os seus esgotos para dentro de mim e dilaceram as minhas águas e continuo a deixar…
Sinto as redes que aprisionam os meus animais…
Sinto os barcos que lavam os seus tanques nas minhas águas…
Sinto os seus barcos que laceram as minhas águas…
Sinto a cor das minhas águas a mudar!
Sinto o sabor das minhas águas a tornar-se diferente!
Sinto o cheiro das minhas águas a ficar insuportável!
O crude que se espalha e os meus animais, que sentem uma lenta agonia antes de morrer, causam-me uma profunda dor.
Fico ainda sem palavras, quando vejo os alimentos que ingerem e que afinal não são alimentos, mas plásticos que viajam milhares de quilómetros, pelas minhas águas.
Vejo as belas cores dos meus corais a fugirem! Sinto os seus gritos desesperados de uma agonia atroz.
Sinto o meu plâncton a morrer… e com ele, a minha vida a desaparecer!
No princípio, há muitos, muitos anos, deixei que tudo fosse acontecendo. Era tão pouco que o poder de autolimpeza das minhas águas era tão grande que não fazia diferença. Eu deixei que tudo acontecesse. Mas depois, depois… começou a aumentar, a aumentar, a aumentar… e o meu poder de autodepuração começou a ser insuficiente. Eu comecei a sentir o meu poder a diminuir. Comecei a sentir a raiva a crescer, o ódio contra os Homens a desenvolver-se. 
A fúria que há em mim tomou conta do meu mais íntimo ser e expludo! Aí, ai de quem estiver por perto. Devoro e destruo tudo e todos, sejam eles os culpados ou os inocentes. Fico alucinado. A minha imensa raiva cega-me e não me permite tolerar o mal que me fazem e, então, perco toda a minha glória e bravura. Fico reduzido ao mais vil dos seres e, nesse preciso momento, quero mostrar como estou triste e como consigo ser vingativo…
Pode ser só um homem que atraio para mim quando pesca nas rochas, mas que me faz lembrar todos os peixinhos que são depois lançados às águas descartados por não os quererem.
Pode ser um nadador solitário que se aventurou mais do que devia e a sua audácia acabou por ser paga com a vida!
Outras vezes, fico-me por pequenas tempestades e ataco apenas um dos seus barcos, que incauto se deixa apanhar pelo poder das ondas, que lhe lanço, e que impotente perante o seu poder se deixa por fim arrastar para o meu fundo. Destruo vidas humanas, eu sei, mas na minha sede de vingança tudo é esquecido e, nesse instante, só penso no que eles me fazem, em tudo o que me tiram e só penso em atacá-los!
Outra das vezes, quando a fúria e a raiva são incontroláveis, clamo aos céus que me ajudem. E, então, ouço o ribombar dos trovões e vejo as águas que brotam das negras nuvens e que se juntam à violência que imprimo às minhas ondas. Eis, assim, que nada me consegue parar. As vagas aumentam de volume e partem-lhes as grandes embarcações como faço com os brinquedos das sereias, quando estas se portam mal.
Porém, é naqueles dias em que a fúria fica ainda mais viva, é nesses dias que chamo a mim toda a minha força, em que apelo a todo o vigor das minhas entranhas, que duplica o meu já imenso poder. E, assim, com toda a energia acumulada ao longo dos anos e ajudado pelas placas tectónicas que me sustentam, sugo as águas para mim, formando então ondas gigantes que depois lanço enfurecidas e deixo que as minhas águas arrastem, devorem, destruam tudo por onde passem, mesmo aquilo que em tempos ajudei a construir com amor. As ondas gigantes que crio tomam tudo em míseros instantes deixando gritos de dor, iguais àqueles que aqueles inconsequentes Homens me deviam ouvir a mim, quando me tiram os meus peixes, quando me atiram com os seus lixos, quando…
Mas, não me ouvem. Porquê?!
A minha fúria ainda tarda em acalmar. O meu espírito ainda se mantém alerta e tempestuoso. Contudo, lentamente vai serenando.
Eu fico a espraiar-me e a apreciar o meu grande feito, ao longo daquela imensidão de praias que eu dominava e muitas das quais o Homem me tem vindo a tentar usurpar. Gozo o espetáculo que faço.
Vejo a minha vingança tornada realidade. Sinto-me tão bem! Qual rei que vê os seus súbditos castigados por toda a maldade que me têm imprimido ao longo de longos anos.
Vejo as casas a ser destruídas. Oiço o choro dos Homens, os carros que deambulam sem rumo, os barcos que se vão voltando. Os muros desabando…

Finalmente, sinto-me serenar e as minhas entranhas começam a sentir o doce sabor da calma, a raiva desaparece. As minhas águas vão regressando e com elas trazem um mundo de humanos. Vejo homens e mulheres, alguns já sem vida, crianças…

Continua...