Equipa d´O Ciclista

Clube de Jornalismo do Agrupamento de Escolas de Anadia – O Ciclista

Endereço de correio eletrónico - ociclista@aeanadia.pt

Coordenação: Dra. Graça Matos | Coordenadora de redação: Dra. Sara Castela

Alunos | Jornalistas: Catarina Gomes Figueiredo | Davide Lopes Liberal | Jacinta Martins Albino | João Rui Costa Flores Soares Bastos | Júlia dos Santos Nogueira | Maria Benedita Vidal Oliveira Águas | Martim Flor Rodrigues

Dra. Miquelina Melo – Membro Honorário

domingo, 31 de julho de 2022

Renascer

Existem diversas maneiras de começar uma história. Podemos começar por dizer que está um belo dia, ou que a água que embatia nos vidros soava como pedras. Também se pode recorrer à indicação de como está a personagem principal, mas, não falta nada?! Não falta referir como está o mundo, como se sente o mundo, o que é que o mundo vê?? Neste momento, o mundo vê melancolia, tristeza e solidão. E agora, estão a perguntar: “Apesar disso tudo, o que é que queres realmente dizer?” Bem, suponho que agora seja o momento da verdade.

Rose, começamos com a jovem dedicada, Rose. Com apenas 17 anos de idade e uma paixão vibrante pela vida, pelos sentimentos, pelo mundo. Nunca conheci uma jovem que valorizasse tanto a palavra “rir”, que, segundo o dicionário, é a simples contração dos músculos faciais por alegria. Rir é aquilo que dá cor aos nossos retratos, que traz conforto, que traz amor e, principalmente, que se torna o refúgio (mas só de alguns, porque “rir” é para todos, mas não é de ninguém, e só este nos faz ir mais além). Todavia, porque estou eu a divagar quando tenho uma história para contar…

Esta nossa jovem encontra-se no seu quarto, que podia ser tão igual (tão normal, talvez) ao quarto de uma qualquer adolescente. Aquilo que difere no quarto de Rose é que ao lado da sua cama, existe toda uma panóplia de fios, cabos e monitores que mostram diversos aspetos do seu estado de saúde. E como me poderia esquecer do pequeno facto, que vocês vão pensar que é o mais importante, este quarto tem a localização exata do Hospital Pediátrico de Leich, um pequeno (ignorando a redundância da situação) pormenor na vida de Rose, ao qual ela já está habituada.

Rose viveu já tempos bastante conturbados na sua vida, tendo esta sido suportada por máquinas mais vezes do que se poderia imaginar. No entanto, esta nossa personagem, simplesmente agora não conseguia entender. Não conseguia entender a tristeza, a melancolia e a solidão em que de repente o mundo havia mergulhado, assim, sem mais nem menos, sem pés nem cabeça, sem uma razão credível. Como é que as pessoas só neste momento pensam na existência da morte, como é que só agora se consciencializam de que ela é bem real, de que a nossa vida pode acabar com um piscar de olhos…. Será mesmo preciso que chegue um vírus para a população em geral se aperceber de que a vida são três dias, e de que devemos aproveitá-la?

Creio que agora já é possível explicar a reação lógica de Rose. Mostrar nas redes sociais o seu verdadeiro eu, expor-se de tal forma que, provavelmente, nem os pais estariam à espera de que se expusesse… tudo através das palavras, e que facilidade ela tem com as palavras… Foi assim que elas começaram a fluir.

“Querida sociedade em geral,

  Face à situação pandémica atual, as palavras solidão, tristeza e melancolia foram e ainda são referidas em diversos momentos como “a consequência de uma pandemia” … Mas será que a pandemia originou estes sentimentos ou será que a pandemia se limitou a mostrá-los de uma forma mais despida?!

A desgraça caiu sobre nós, fomos obrigados a isolar-nos, a mantermos a distância uns dos outros. Contudo, esquecemo-nos da nossa necessidade de conviver, de falar e de rir com alguém. Atualmente, eu sei que dou mais significado a um sorriso, a um almoço com amigos, a um abraço dos meus avós… enfim, dou tanto significado à vida que viverei e sei que por mais locais onde vá e que por mais pessoas que conheça, nunca estarei sozinha.

Não obstante, nos tempos modernos, este tipo de sentimentos é inconcebível tendo em conta que frequentemente somos capazes de nos sentirmos solitários mesmo estando rodeados de pessoas. Recorrendo ao mundo das sensações, temos tendência para nos isolarmos quando nos sentimos menos bem e, às vezes, é complicado sairmos dessa “bolha” criada por nós, e deixamos que o movimento das ondas do mar ou a sintonia das notas musicais nos invada até nos sentirmos novamente completos.

No fundo, e falo por experiência própria, só nos iremos sentir completos quando conseguirmos reconhecer toda a panóplia de sentimentos que iremos enfrentar. Não vivemos num mundo justo ou que seja inteiramente correto e tendemos a pensar de forma negativa quando não conseguimos encontrar a felicidade, mas ela existe e está em nós.

A solidão, a tristeza e a melancolia podem persistir nestes tempos, todavia a felicidade, a autodescoberta e o amor próprio encontram-se cada vez mais enraizados na cultura mundial. Todos nós, numa determinada fase da nossa vida, temos esses sentimentos. A vida consiste no equilíbrio dos sentimentos e na força que nós possuímos dentro de nós e que serve para “lutar” contra as adversidades que esta jornada nos traz.

Mas se considerarem que isto é só mais um texto, para vos animar, e que a pessoa que está por detrás do ecrã a escrever isto é só uma pessoa que não tem mais nada de interessante para fazer…. Podem parar de pensar dessa forma. O meu nome é Rose, já perdi mais amigos do que possam imaginar e fui diagnosticada com uma doença rara aos 13 anos de idade. Agora, que sabem um pouco sobre mim, leiam outra vez este texto e reflitam!

Saudações sem Covid para todos.”

E assim foram as últimas palavras de Rose, palavras que abalaram o mundo, que fizeram chorar todos aqueles que leram a sua carta… Rose tocou mais corações do que alguma vez podia imaginar, curou pessoas que nem sabiam que precisavam de ser curadas, e, ao abrir o seu coração, deixou que toda a sua luz se espalhasse para tornar o mundo um lugar mais feliz.

A máquina parou, o coração de Rose deu mais três palpitações. A mãe e o pai choravam a perda da sua única filha, os médicos encontravam-se perplexos e em silêncio. O mundo tinha acabado de perder uma voz importante. Só a avó de Rose proferiu algumas palavras: “Obrigada, minha querida! Eu sabia que ias mudar o mundo”.

A vida física de Rose havia terminado, mas a sua marca ficava para sempre e tinha transformado muitos corações…

Mariana Lopes, 10.º A

 

sábado, 30 de julho de 2022

Modo de avião

Sou a Mónica, ou melhor, @moniica067d. Este é o meu nome de usuário no Instagram.

Estou agora no Rio de Janeiro. Viajei para cá para visitar a minha tia Lúcia que vive num prédio amarelo com o seu cão em Jacarepaguá.

O meu perfil transborda de fotografias nos mais emblemáticos lugares da cidade: Ipanema, Copacabana, Cristo Redentor... Loucura.

Perco-me no meio de ruas preenchidas por multidões, de odores, melodias. Brasil. Entre gostos e comentários, perco-me. 

Caminho, descalça, sobre a calçada. Está calor e os meus pés ardem, mas resisto. Ups... fui de encontro a alguém. Estou tão concentrada a trocar mensagens com a Ayla, da Turquia, que conheci no Cyber Friends, que não me apercebo dos obstáculos que surgem. Falo diariamente com dezenas de pessoas de todo o mundo sobre as tendências do momento. Outro encontrão. Repetidamente, chegam-me notificações e eu, atrapalhada, procuro ficar a par de tudo. Uma mensagem do Oliver. Outro encontrão. O sol arde. Sento-me num banco, absorta neste “mundo virtual” e não reparo nas pessoas que descontraidamente percorrem as avenidas com chinelos nas mãos, nas palmeiras altas que murmuram, nas maritacas* verdes que discutem... não olho ao meu redor. Edito fotografias que partilharei ainda hoje.

As ondas, serenas, aproximam-se e afastam-se, sou capaz de ouvir os seus suspiros profundos. Está calor, mas o ar é húmido e sinto uma brisa meiga a infiltrar-se na minha pele. Continuo entretida. Rio de Janeiro. As suas pessoas. Eu. Eu e o meu mundo. O meu mundo.

Acabei de publicar um conjunto de fotografias rapidamente atacadas por likes. Desligo o telemóvel e cerro os olhos com toda a força. Volto a ligá-lo. Respondo aos comentários. Respondo a mensagens. Estou conectada! Num pequeno dispositivo que é um telemóvel existe um grande mundo, uma confluência de personalidades, hábitos, ideias, opiniões... de vidas. Vidas. Vidas?

 Sinto-me cansada, os raios solares confundem-se com a luz do ecrã.

Desligo o telemóvel. Olho ao meu redor. A cidade vive. As suas pessoas vivem. Caminham vagarosamente, descalças, sobre a calçada que arrefece. Mentes pacíficas. Saboreiam gelados. Saboreiam o momento que estão a viver. Estão isentas de pensamentos. Não pensam em publicar uma fotografia ou story no Instagram. O sol está cada vez mais baixo. Os restaurantes começam a abrir e a praia enche-se de pessoas. Pessoas tão diferentes. Pessoas com vidas diferentes. Vidas.

 

Entardecer. O céu adquire um tom alaranjado e as nuvens refletem as formas do mar. Rio de Janeiro. As pessoas estendem longas toalhas na areia à espera que se anuncie o início do fenómeno mais belo da natureza: o pôr do sol. Estão felizes e convivem partilhando momentos do seu dia. Relações autênticas. Ninguém pensa em escrever um comentário no Twitter. Aguardam. Conversas afáveis. Risos vivos.

Diversidade. Cada pessoa com a sua personalidade, o seu sorriso, a sua vida. Todas olham para o mar. Imensidão. Veem-no de forma diferente, mas sentem o mesmo: liberdade. A melhor sensação.

Levanto-me do banco e a passos lentos, tentando não deixar qualquer rasto na areia flava, aproximo-me do mar. Fecho os olhos e inspiro a peito inteiro. Ar.

Penso nas pessoas e penso em mim. Na minha identidade mutável. Sinto uma espécie de remorso. Nas redes sociais, mostro aquilo que acho mais conveniente. Crio uma versão otimizada de quem sou.

Sempre acreditei que para ser aceite pelo corpo social deveria ser possuidora de determinados atributos. Tentei moldá-los em mim e acabei por perder a minha individualidade e essência.

Eu não sou a @moniica067d, mas sim a Mónica. Sou eu, eu mesma!

Abro os olhos. Liberdade. Sento-me.

Surgem as primeiras estrelas no céu: Vénus, a mais brilhante.  Invade-me o cheiro a comida proveniente dos restaurantes, ao longe, vejo um grupo de pessoas a dançar e cantar ao som de tambores. O sol abraçou a paisagem. Laranja. Os montes, as palmeiras e os edifícios tornam-se negros em contraste com a luz do sol. Vermelho. Ditosamente, bandos de aves exibem coreografias. Cada pássaro entoa a sua melodia, e, na discordância, juntos, formam uma airosa canção de despedida de um dia.

Amanhã será outro. O sol desaparece no horizonte.

Aqui, deixo de parte o meu diário digital. Começo a construir a minha entidade, a partir de vivências e experiências reais. Esta é a realidade. Esta é a minha vida. Este é um momento que eu tenho de sentir e apreciar.

Pego no telemóvel. Coloco-o em modo de voo.


  *Maritaca: é o nome de uma ave abundante no Brasil, o mesmo que maitaca. 

Anna Shevchenko, 10.º A - Escola Básica e Secundária de Anadia

sexta-feira, 29 de julho de 2022

In)felicidade

“Rir é o melhor remédio”, dizem eles, mas e se não for?

E se o meu remédio for exatamente o oposto? E se só me apetecer chorar em vez de rir à gargalhada? 

Às vezes começo a pensar que talvez nunca tenha sentido felicidade, talvez tudo aquilo que eu tenha sentido até agora tenha sido tudo, menos a felicidade. Uma ilusão, quem sabe… 

Às vezes paro para pensar e sou totalmente invadida. Tanto fisicamente como mentalmente por um conjunto de algo. Algo que nunca antes tentei compreender. Será a melancolia a invadir-me sem qualquer tipo de autorização? Porque sim, eu apercebo-me da tua interdita invasão, embora ocasionalmente não a queira aceitar. Gostava de poder sentir a luz ao fundo do túnel que todos dizem existir, aquela que eu espero que me traga o que tanto procuro de volta. Que eu espero que me traga a felicidade, a verdadeira felicidade que tanto procuro. Mas a única coisa que sou capaz de imaginar ao passar esse túnel na busca do meu “tesouro” é a tristeza e a melancolia, de mãos dadas, como uma dupla perfeita. Prontas para me dominar. Para me invadir, tomar conta de mim e levar para ainda mais longe a luz. 

Mas haverá mais pessoas na mesma condição? Nesta minha condição de insatisfação sempre com tudo o que vejo, penso, faço. Será o mundo um lugar propício a tais sentimentos? Não sei, talvez ninguém saiba. Talvez o mundo e a vida se resumam a isto, a uma incessante busca por algo, que parece inatingível. A uma ininterrupta ocupação destas emoções incompreendidas por tantos. Mas e que sabem eles? O que julgam eles saber sobre estes sentimentos tão meus? São tão meus ao ponto de sentir que por mais que existam pessoas nesta condição e que por isso também sintam estas sentimentos, nunca me compreenderão totalmente. Porque por mais que sejam semelhantes, cada um os sente à sua maneira e temo senti-los mais do que ninguém. E já que falei em dupla, também vejo a incompreensão e a solidão de mãos dadas. Outra dupla para se juntarem àquela que já foi conquistando cada pedaço de mim, como se se tratasse de um processo natural. 

Porque se há vezes em que me imagino sentada perante uma mesa rodeada das pessoas que amo a criar momentos, vivências e a partilhar histórias, instantes que retratam aquilo que me tenho perguntado se algum dia chegará, são mais aquelas em que estou sentada nessa mesma mesa e em que apenas tenho ao meu lado as mesmas  pessoas, as que me acompanham para todo o lado que vá, sem me terem perguntado algum dia se queria a sua companhia. 

Na verdade, essas quatro pessoas de que falo são presença assídua na minha vida, não me largam nunca a mão. Pelo contrário só a apertam mais, como quem me garante uma vez mais que não vai arredar pé. E já que rir não é o meu remédio, talvez o melhor que tenha a fazer seja resignar-me à situação. Perceber que haverá dias em que a insatisfação e o descontentamento e tantos outros “primos” se vão querer juntar. Saber reconhecer que haverá dias em que os sinto a apertar-me a mão mais do que noutros, como quem grita “presente”, com o intuito de marcar a sua posição. Talvez a minha vida se resuma a isto: a sentir-me só mas a tê-los comigo, a procurar a luz que me traga o que tanto quero e a manter a pouca esperança que ainda me resta de que um dia, nem que seja noutra vida, o meu tesouro se sente no outro topo da mesa, de frente para mim e eu o consiga sentir dentro de mim, na mesma medida que sinto as outras pessoas que diariamente se sentam comigo na mesa. 

 Ensino Secundário

quinta-feira, 28 de julho de 2022

Os carimbos (Vencedor Género Narrativo)

Hoje fui abordada, uma vez mais, por um senhor dos carimbos, nome com que, simpaticamente, batizo a todas as pessoas que “fazem de conta” que andam à procura de trabalho. Esta pessoa já não é a primeira vez que cá aparece, mas, como todas as outras nesta situação, esteve num período de descanso. A pandemia levou a que a procura deixasse de ser presencial durante os primeiros meses de 2021.

O indivíduo distingue-se das várias pessoas que nos “visitam” por querer uma assinatura e carimbo não para ele, mas para a esposa.

O desinteresse por arranjar trabalho é tanto, que ela nem se desloca à empresa, fazendo-o ele, já que o seu trabalho fica no trajeto. Claro que não veem a partilha do transporte como uma mais-valia, porque não está em causa o trabalho, mas sim o subsídio. 

O ordenado dele mais o subsídio de desemprego que ela recebe, é-lhes suficiente para irem sobrevivendo, não tendo nenhum tipo de preocupação com o futuro dos filhos.

A verdade é que o maço de fotocópias denuncia logo que o homem não está para grandes trocas de palavras, muito menos para ouvir os meus argumentos sobre o não depender de um subsídio, que trabalhar para conseguir um maior rendimento levará consequentemente uma melhor gestão familiar.

Efetivamente sinto que acabo por compactuar com toda esta situação, mas acaba por ser uma perda de tempo e de dinheiro estar a tentar dar formação a alguém que simplesmente não quer trabalhar e numa semana faz de tudo para não se “adaptar” ao trabalho e nos fazer aceitar que não se irá “adaptar”.

Se a procura ativa de emprego é uma obrigação imposta pelo Instituto de Formação Profissional (IEFP) e pela Segurança Social, de forma a que se possa beneficiar do subsídio de desemprego, por outro lado, o IEFP é facilitista nas justificações, pois a falta de meio de transporte é sempre um motivo aceite, sem ser verificada a sua veracidade.

Se por um lado, Portugal tem um número elevado de “subsídio-dependentes” por outro, as gerações mais velhas criticam os imigrantes que vêm “tirar” os empregos aos portugueses.

O que é certo é que as ofertas de emprego estão a multiplicar-se e, sem mão de obra imigrante, que quer efetivamente trabalhar, estaríamos com um problema grave.

Marta Santos, Centro Qualifica – EBSA / AEA

 

Parabéns, Marta, pelo primeiro lugar alcançado!

quarta-feira, 27 de julho de 2022

Não te escondas por detrás dessas paredes.

O Tomás era um menino diferente dos outros. Não jogava futebol, andava com meninas no recreio da escola e gostava de bonecas. Mas, em casa, ele era diferente. O seu pai sempre quisera que ele fosse um jogador de futebol, alto, usasse azul, e tivesse uma namorada… mas não era bem assim.

Ele tinha uma relação horrível com o pai, desde que a mãe tinha morrido num trágico acidente de carro. Nunca falavam sobre isso, porque, quando o faziam, o filho culpava o pai por ser ele que estava a conduzir.

Um dia, Tomás foi para a escola a pé e, no caminho, encontrou a Inês, uma das suas melhores amigas desde a primária.

- Junta-te a mim! - disse a Inês.

- Claro! - respondeu o Tomás.

E lá foram os dois para a escola.

Chegados lá, encontraram o Henrique e o seu grupinho a jogar futebol, aquele típico grupo que goza com tudo e todos. O Tomás não gostava nada deles. Chamavam-lhe “paneleiro”, “copo de leite” e “florzinha”. Não era coisa que se dissesse! Tomás adorava dançar, qualquer tipo de dança! Apenas gostava de se movimentar a um ritmo de uma melodia qualquer, não importava qual.

Nesse dia, em Educação Física, foi aula de dança. Os rapazes começaram logo a criticar porque diziam que dança era para meninas, mas o Tomás ficou muito contente. Dançaram zumba e divertiram-se imenso! Depois, no intervalo da tarde, quando o Tomás e a Inês estavam cá fora a dançar os dois, a auxiliar chamou-o para ir arrumar as suas coisas porque o pai estava lá fora à espera. Arrumou as coisas e foi ter à carrinha do pai.

Mal chegou, começaram a discutir porque o pai o tinha estado a ver na aula de Educação Física e tinha percebido que o seu filho afinal não era como ele queria que fosse, mas, ainda que isso lhe custasse, teve de o aceitar, porque era seu filho e só não era assim em casa porque tinha medo dele. Que filho é que tem medo do pai? Que pai é que quer que o filho tenha medo dele? Então, aquele ambiente tóxico desapareceu e eles foram para casa.

Guilherme Costa, n.º 7, 8.º D

terça-feira, 26 de julho de 2022

As aparências iludem

Lá estavam elas a subir a rampa da escola, como todos os dias, desde o quinto ano.

A Sara, com aquela expressão típica que diz “não quero saber” e, ao seu lado, a Marta, com aquele sorriso contagiante que não lhe sai da cara. Até parece forçado, mas já chego lá…

  O único sentimento que conseguimos identificar na Sara é a felicidade. Quando ela está feliz, não para de rir por nada, esteja onde estiver, mas raramente está assim. Todos os dias de manhã, antes das aulas, dirige-se à cantina para estar com os seus dois melhores amigos que são praticamente como ela, enquanto a Marta vai até à sala sozinha para não se atrasar.

Embora pareça sempre muito feliz, a vida da Marta está longe de ser perfeita: o seu pai chega todos os dias a casa tarde e maldisposto do trabalho e descarrega a sua frustração na filha. Não lhe bate, como é óbvio, mas implica sempre com ela por coisas insignificantes; a sua avó está com Alzheimer, num lar, e o avô parece que anda constantemente triste por causa das saudades que tem da sua mulher. Os seus avós paternos faleceram os dois no ano passado, causando assim uma enorme angústia a toda a família. Para piorar a situação, as suas amigas tratam-na como se ela fosse um objeto, quando já não há mais nada em que ela as possa ajudar, simplesmente param de falar com ela. Ela tem consciência de que há outros em situações muito piores do que a sua, mas, mesmo assim, custa.

Uma dessas pessoas é a Sara, para quem a escola é a única parte boa na sua vida, porque quando chega a casa…

             Na terça-feira passada, assim que chegou, viu a mãe, na cozinha, a limpar o sangue que lhe escorria da parte de cima da sobrancelha, e, ao ver o pai limpar as mãos ensanguentadas, percebeu que o corte da mãe não tinha sido um acidente. Além dos pais, a Sara não tinha mais nenhuma família chegada, não tendo mais nenhum lugar para onde ir… Não tinha uma vida fácil, mas, pelo menos, tinha aqueles dois amigos, que eram tudo o que precisava.

Assim que a Sara e a Marta se conheceram nunca mais se separaram, uma vez que traziam à superfície o melhor uma da outra. Como é evidente, não era uma amizade perfeita, mas era a ideal para ultrapassar estes traumas.

As coisas acabaram por melhorar: o pai da Sara foi preso, porque acabou por se descobrir que a violência doméstica não era o seu único crime. Embora a situação com a avó da Marta não tenha melhorado, a sua amizade com a Sara fez com que as coisas fossem menos complicadas.

Isabel Verdade, 8.º E

segunda-feira, 25 de julho de 2022

A garota perfeita

Tudo começou quando Bella tinha apenas 14 anos de idade. Devido ao bullying, ela tornou-se totalmente obcecada em manter uma aparência perfeita, não possuir defeitos e não cometer erros.

Aos 16 anos, ela levantava-se da cama antes que o sol começasse a brilhar para se arranjar para a escola. Fazia de tudo e mais um pouco: tirava o excesso de sobrancelhas, depilava os braços e pernas, usava maquilhagem, fazia exercícios em excesso, para não ter gordura a mais, e usava cintas para que o formato do seu corpo correspondesse ao padrão de beleza. Quem a via, desejava ser como ela, desejava ter as notas dela, o cabelo dela, o namorado dela e a vida perfeita que ela parecia ter.

Porém, não conseguiam imaginar que, na "vida perfeita" de Bella, ela ouvia todas as noites os seus pais a discutirem devido a traições de ambos os lados. Eles também não sabiam todas as lágrimas que ela derramava por se achar sempre insuficiente em algumas áreas. Eles não sabiam dos abusos e pressões psicológicas que o seu namorado exercia sobre ela; não sabiam de cada noite mal dormida por conta da ansiedade. "Ela é tão perfeita!" diziam eles.

Ela podia parecer confiante fora de casa, mas dentro do seu quarto era apenas uma garota frágil que precisava de apoio e de um abraço.

Kemilly Ribeiro, n.º 12, 8.º E

domingo, 24 de julho de 2022

Um tesouro especial

Era uma vez, quatro colegas que saíam da escola a pé como já era habitual, a casa ficava muito perto.

A Rita ia para casa da Sofia. A chegarem a casa, no passeio, estava uma cadelinha abandonada. Era muito meiga, de porte médio, bonita, peluda, com olhos azuis que pareciam diamantes a brilhar. Sofia quis levá-la para sua casa. Foram buscar uns biscoitos e, quando regressaram à rua, chamaram a cadela que não aparecia. As duas amigas estavam tristes e voltaram para dentro de casa. Ao fecharem a porta, viram a cadela deitada no tapete da entrada.

Deram comida à cadela, tentaram dar-lhe banho, mas sem sucesso. Por fim, brincaram até a cadela ficar cansada.

Depois de uma tarde juntas, Sofia tinha para o relógio, que a tia lhe tinha dado, e reparou que a mãe já devia ter saído do trabalho. Sofia não queria mostrar a cadela à mãe sem, primeiro, falar com o seu pai.

Pediu ajuda à amiga, Rita que ficara à janela a dar as indicações:

- A tua mãe está a chegar!

Já se ouvia o ranger da porta a abrir e Sofia tinha metido a cadela dentro de um armário com peluches para ela se entreter e para estar escondida.

Foram as duas para o andar de baixo e Sofia perguntou à mãe, para ver a sua reação:

- Mãe, gostarias de ter cá em casa uma cadela ou um cão?

- Filha, para já não estou a pensar em adotar um animal de companhia...- disse a mãe um pouco confusa.

A mãe da Rita chegara para a ir buscar. Despediram-se e foram embora.

Passado algum tempo, a mãe estava a preparar o jantar e Sofia lembrou-se da cadelinha no armário e rezou para que o pai não demorasse. Ele ia, com certeza, ser mais compreensivo do que a mãe em relação a ficarem com a cadela que tinha encontrado.

Estava embrenhada neste pensamento, quando sentiu a chave a abrir a porta de entrada. O pai acabava de chegar! Depois de estarem todos sentados à mesa par começarem a jantar, Sofia arriscou dizer:

- Mãe e pai, eu tenho uma surpresa!!- subiu a escada e desceu, quase a seguir, com a cadelita nos braços, com um ar perdido.

Sofia explicou a história do encontro inesperado e os pais ficaram contentes por ela ter ajudado um animal:

- Muito bem, filhota, salvaste a cadela e agora ela vai pertencer à nossa família! - exclamaram os pais em coro a olharem um para o outro.

- Agora vamos decidir um nome para a nossa amiga, por exemplo Lilly ou talvez Nancy...- sugeriu Sofia.

- Eu gosto dos dois nomes, mas acho que gosto mais de Nancy. - disse a mãe.

- Eu também! Nancy é um nome muito bonito. - Sugeriu o pai.

- Então o nome da cadela é Nancy! - disse Sofia, muito contente e entusiasmada.

Acabaram de jantar e estava na hora de ir dormir.

- Mãe, será que a Nancy, só hoje, pode dormir no meu quarto? Ela parece tão assustada…

A mãe concordou. Também tinha reparado no ar desamparado da cadelinha, enroscada no colo de Sofia.

No dia seguinte, foi a Nancy que, cheia de energia, acordou Sofia. Depois do pequeno almoço, vestiu-se, e, quando saiu de casa com a mochila às costas, olhou de relance para Nancy. Esta, de orelhas no ar, parecia pressentir que ia ficar sem a sua amiga por algum tempo.

Passaram-se alguns dias. Duas semanas depois, na escola, durante o intervalo, Sofia, Rita e os outros colegas combinavam os últimos pormenores da visita de estudo que fariam, no dia seguinte, à Mata do Bussaco. O professor de Ciências dava as últimas indicações: material necessário, roupa adequada, comida para o almoço partilhado e meia dúzia de cêntimos para comprarem um gelado no café que se situa no interior da Mata, junto ao hotel.

A Sofia e a Rita prestavam pouca atenção àquelas recomendações e não paravam de cochichar. De repente, sem pensar no que estava a pedir, a Sofia colocou uma questão:

- Stor, será que eu podia levar a Nancy connosco, amanhã?

- A Nancy? É alguma aluna da escola?

Gargalhada geral! Já todos os colegas da turma conheciam a Nancy. Aliás, depois do dia em que a Nancy começara a fazer parte da vida da Sofia e da Rita, e durante algum tempo, não se falava de outro assunto nos intervalos.

- Não, stor, a Nancy é a nossa mascote. – Disse o Pedro, a rir. – É uma cadelinha que a Sofia e a Rita encontraram, abandonada. Os pais da Sofia adotaram-na, mas o pessoal aqui da turma também a queria adotar. Como não podíamos, decidimos que seria a nossa mascote!

- Bom, uma vez que vamos passar o dia ao ar livre, não vejo inconveniente de levarmos a Nancy! – Rematou o professor. – Agora, atenção ao que estou a dizer!

Na manhã seguinte estava um de sol quente e brilhante! Enquanto esperavam pelo autocarro, quase que se zangavam para ver quem pegava em Nancy e quem brincava com ela. A cadela, claro, estava toda contente, de orelhas no ar e cauda a abanar.

A visita de estudo foi muito enriquecedora. Seria preciso mais de uma semana para conhecer com mais profundidade toda a diversidade da Mata do Bussaco, mas, ainda assim, os alunos vinham cheios de histórias para contar. Os blocos de apontamentos para, na aula seguinte, realizarem o relatório da visita, estavam cheios de notas, esquemas e desenhos mais ou menos pormenorizados.

E a Nancy? Bem, a Nancy não sabia para que lado havia de se virar: os colegas da turma, o professor, a quantidade de plantas e, sobretudo, os passaritos. Todos se riam quando ela desatava a correr atrás de pássaros que, assustados, voavam logo bem alto.

Foi um dia inesquecível! No caminho para casa, parecia que o autocarro ia vazio… o cansaço dos alunos, do professor e, claro, da mascote Nancy, mostravam uma enorme satisfação, a sensação do dever cumprido!

Antes de adormecer, à noite, deitadinha na sua cama com a cadelinha ao lado, Sofia agradecia o tesouro especial que tinha encontrado, a caminho de casa, naquele final de tarde.

Bruna Cordeiro, n.º 4, 6.º E

sábado, 23 de julho de 2022

Maria

Maria tinha 7 anos e vivia com a sua avó numa pequena aldeia de onde nunca tinha saído. Era uma menina curiosa, gostava de aprender e tinha um sonho!

Maria não ia para a escola e, por isso, não convivia com outras crianças. Não havia transporte na aldeia e a avó, já idosa, não conseguia acompanhá-la. Preocupada com o futuro da neta, ensinou-lhe as letras e a menina aprendeu a ler com facilidade. Apesar de gostar muito da sua avó e de se sentir feliz ao seu lado, faltava-lhe alguma coisa O sonho dela era ir para a escola, conhecer outras crianças e … poder visitar uma biblioteca!

Maria e a avó tentavam juntar dinheiro para a menina poder realizar o seu sonho, mas, a cada dia que passava, tinham menos…

Numa tarde de setembro, em que a menina estava na terra a brincar com umas pinhas que tinham caído de um alto pinheiro no dia anterior, parou, na casa do lado, um carro. Vizinhos novos! E a melhor parte: tinham uma criança da idade da Maria.

Pareciam ser muito simpáticos e amáveis, a menina correu até ao carro e foi falar com o menino, e ele depois disse sorrindo:

- Olá, nós somos os vossos novos vizinhos!

Maria respondeu:

- Olá, que bom! Sejam muito bem-vindos!

Depois, enquanto os pais levavam as coisas para dentro, eles começaram a brincar, e, enquanto falavam, a Maria contou-lhe por que não ia à escola. O João, era este o seu nome, disse-lhe que ia falar com os pais.

Foi a casa e quando voltou vinha com os pais, que perguntaram a Maria:

- Então, querida, não vais à escola?

E a Maria contou-lhe a situação por que ela e a avó passavam, e os pais perguntaram se podiam falar com a avó dela.

E ela disse que sim, passadas umas duas horas de conversarem, a avó saiu com um brilho nos olhos.

Correu até a sua neta e disse lhe:

- Querida, vais começar a ir à escola com os novos vizinhos!

Rafaela Fernandes, 5.º G

sexta-feira, 22 de julho de 2022

Com três anos e um palco

Era pequena, tinha apenas três anos, e estava em cima de um grande palco. A sala estava cheia, as cadeiras estavam todas ocupadas e os muitos olhos que via estavam especados em mim.

Tinha ensaiado muito, mas, naquele momento, o pânico apoderou-se de mim. Parecia que ia congelar e que nunca mais poderia voltar a mexer-me.

De repente, as cortinas abriram-se e a música começou a tocar enchendo as paredes de notas musicais. E eu fiz a única coisa que podia fazer, dançar!

Bailei, rodopiei, até o silêncio voltar. E, como que por magia, as palmas invadiram a sala.

Só voltei àquele palco no final do espetáculo para fazer a vénia e atirar flores.

A história repetiu-se nos três dias seguintes, mas no último foi diferente! Eu dancei e agradeci à mesma, mas fiz tudo isso ao som de rebuçados a caírem do céu, de uma nuvem imaginária que surgiu por cima da minha cabeça.

Às vezes os rebuçados caíam-nos em cima das nossas cabeças e despenteavam-nos, mas era muito divertido e, mais importante que isso, significava que finalmente podíamos descansar.

Este foi o meu primeiro espetáculo. Houve muitos mais, mas este foi sem dúvida o mais importante para mim.

Muitas vezes, as primeiras experiências das nossas vidas podem ser muito marcantes e decisivas no nosso futuro. Digo isto porque penso que quero ser bailarina e vou trabalhar para alcançar este objetivo!

Joana Santos, n.º 12, 6.º B